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30/07/2007 22:16

ACM Vade Retro

Retirado de http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=443MEM003

ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES (1927-2007)
Deus e o diabo na terra do acarajé

Por Luiz Cláudio Cunha e Ricardo Noblat em 24/7/2007

Postado no Blog do Noblat, em 20/7/2007, às 13h28
No final de 2002, o senador Antonio Carlos Magalhães, acompanhado de seu amigo João Di Gênio, adentrou o restaurante Gero, em São Paulo, e topou por acaso com o jornalista Juca Kfouri, a quem cumprimentou com um elogio: "Quando você dirigia a Playboy, a revista fez o melhor perfil que a imprensa brasileira publicou a meu respeito".

A reportagem de 1993, quando ACM cumpria seu terceiro mandato como governador da Bahia, foi escrita pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, colaborador deste blog. "Lembra dele, senador?", perguntou Juca. "Claro, muito bom profissional. Nunca me puxou o saco, nem me sacaneou".

A reportagem "Deus e o Diabo na Terra do Acarajé", um texto de 40 mil caracteres, ocupou nove páginas da edição 215 da revista de junho daquele ano. Durante duas semanas, o repórter ouviu no eixo Salvador-Rio-Brasília políticos, empresários, jornalistas, amigos apaixonados e inimigos mortais do homem que dividiu a política brasileira entre o bem e o mal, a malvadeza e a ternura. No texto, revivem personagens do presente, como Sarney, Geddel, Collor, Waldyr Pires, e do passado, como Brizola, Roberto Marinho, Figueiredo. E revela-se que ACM, atingido por um infarto quase fulminante em 1989, morreu três vezes na mesa de operações do Incor, onde padeceu uma cirurgia de nove horas, até ressuscitar milagrosamente.

O texto resgata o faro de repórter do jornalista ACM, apontado na época como a melhor fonte da política brasileira. ACM, a pedido do repórter, listou as sete virtudes capitais de um bom informante para jornalistas. Acabaria ele mesmo desrespeitando a regra nº 4, que reza: "Nunca colocar o repórter na pista errada".

Dez anos depois, quando Cunha era editor de Política da sucursal da revista IstoÉ em Brasília, ACM disse ao repórter, em off, que havia mandado grampear seu desafeto Geddel Vieira Lima, hoje ministro da Integração Nacional. A Polícia Federal apurou que era mais do que uma travessura contra um inimigo – era um malvado megagrampo da polícia baiana que bisbilhotou os telefonemas de 700 pessoas em cinco estados.

Cunha quebrou o off, abrindo um debate ético na profissão, apontou ACM como mandante da operação, e o senador só não foi cassado porque a mão terna dos amigos Sarney e Lula garantiu o arquivamento do processo. Com autorização da Playboy, reproduzo o primoroso texto de Cunha. (Ricardo Noblat)

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Perfil – Antonio Carlos Magalhães

Luiz Cláudio Cunha # "Deus e o diabo na terra do acarajé" – copyright Playboy, edição 215, Junho 1993

Anjo ou demônio? Amigo ou inimigo? Governo ou oposição? Bajulador ou contestador? Austero ou corrupto? Ditador ou democrata? Malvadeza ou ternura?

Há quatro décadas o país tenta definir os traços mais marcantes do baiano Antonio Carlos Peixoto de Magalhães, médico de formação, jornalista de profissão e político por devoção. Nas ladeiras estreitas e calorentas de Salvador ou nos gabinetes atapetados e refrigerados de Brasília, o perfil polêmico do governador (pela terceira vez) da Bahia ainda desperta ódio e paixão, provoca inveja e admiração, estimula adesões, cria temores – e sustenta uma discussão que parece interminável. Aos 65 anos, o mais agressivo político brasileiro sobreviveu a todas as tormentas do país desde o governo de JK, na década de 50. Agora, como líder de uma oposição inclemente ao governo Itamar Franco, já de olho na sucessão presidencial de 1994, atrai outra vez a fúria dos elementos. É a briga mais recente da aguerrida biografia de Antonio Carlos Magalhães – e brigar é o que ele sabe fazer melhor.

Eleito deputado federal em 1958, aos 28 anos, pela União Democrática Nacional, a hoje extinta UDN, indispôs-se com um dos principais caciques do partido, Carlos Lacerda, o governador do Estado da Guanabara a partir de 1960, e com o presidente Jânio Quadros, que chegou ao poder em 1961 com apoio udenista.

Brigou em seguida com o presidente João Goulart e conspirou para o golpe militar de 1964. Comprou briga, também, com as tradicionais lideranças políticas baianas, ao ganhar a prefeitura de Salvador e o governo do Estado apoiado nos comandantes militares. Trocou socos com deputados e tapas com general. Bateu-se pelo AI-5 e, depois, contra a linha-dura que, confrontando os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, queria manter o país nas trevas eternas da ditadura. Batalhou pelo general João Figueiredo, na sucessão do presidente Geisel, e contra Figueiredo, quando o Palácio do Planalto adotou em 1984 a candidatura Paulo Maluf.

Abriu baterias, no mesmo ano, contra o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, desestabilizando a base militar do malufismo e, na hora certa, botou o pé no estribo da Nova República. Trovejou no palanque das Diretas-Já e manobrou pelas indiretas no Colégio Eleitoral, como queria Tancredo Neves. Brigou contra a CPI da Corrupção, como ministro, e contra os corruptos, como governador. Brigou com a Constituinte que queria encurtar o mandato do presidente José Sarney, dando concessões de rádio e TV aos amigos do presidente. Brigou com a NEC do Brasil quando a empresa, fabricante de equipamentos eletrônicos, estava sob o controle do empresário Mário Garnero e se reconciliou com ela quando, num episódio controvertido, Garnero a perdeu para o amigo Roberto Marinho – o amigo de três décadas que repassou às suas emissoras de TV na Bahia a programação imbatível da Rede Globo (Garnero até hoje responsabiliza ACM pela perda da NEC). Brigou contra o primeiro ministério de má fama de Fernando Collor e submergiu, num silêncio eloqüente, no arrastão da CPI que varreu a caterva da Dinda do poder. Brigou com o governador fluminense Leonel Brizola, em defesa do turismo da Bahia, e com o prefeito carioca César Maia, para proteger o Carnaval de Salvador. Brigou contra Itamar vice, e vai brigar ainda mais contra Itamar presidente.

Com tanta briga, Antonio Carlos Magalhães fez amigos, ganhou certamente muito mais inimigos, definiu um estilo e consolidou uma marca: ACM é hoje a sigla política mais longeva do país, após a extinção do PCB, o septuagenário Partido Comunista Brasileiro. "O importante, na política, é dizer não", ensina ACM, que garante não guardar ódio de seus inimigos: "Quem odeia é escravo de seu ódio, e por isso muitos de meus inimigos são meus escravos." Nessa multidão ele inclui, com certeza, o senador Jutahy Magalhães (PMDB-BA), que não lhe perdoa a ingratidão com antigos amigos. "ACM é como pombo", compara o senador. "No chão, ele come na mão da gente. No alto, caga na cabeça da gente."

Ele comeu na mão do pai de Jutahy, o ex-governador Juracy Magalhães, que abençoou seu ingresso na política pela legenda da UDN baiana. E agora está sujando a cabeça do filho do senador, o ministro Jutahy Jr., da Ação Social, que ACM acusa de repassar verbas federais a prefeitos amigos em fim de mandato. "Não existe ninguém mais gentil do que ACM quando ele quer agradar", cutuca Jutahy pai. "Ele sabia que meu pai adorava os netos e vivia dando presentes ao Jutahyzinho.". ACM rebate: "Esse menino, o ministro, me beijava mais do que meu filho, o Luiz Eduardo. Só Freud explica..."

"Não tenho medo do apito do guarda noturno"

Outro notório desafeto, o deputado federal e ex-governador Waldyr Pires, acusa: "Antonio Carlos governa com o chicote numa mão e a bolsa de dinheiro na outra. Se houvesse uma terceira, seria a da bajulação." Mesmo a oposição, porém, reconhece que nenhum líder civil do golpe militar de 1964, à exceção talvez de Carlos Lacerda, confrontou com tanta dureza os militares como ACM. Em 1965, deputado federal e presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena) baiana, ele trombou com o general João Costa, comandante da 4ª Região Militar, que pressionava a Câmara de Vereadores de Salvador. Num encontro no Palácio da Aclamação, diante do então governador Lomanto Jr., o general entrou ríspido na conversa: "Veja como você vai falar!...", cortou ACM. No elevador privativo, estreito para tanta autoridade, o general levantou o dedo na sua cara e ACM explodiu: vergou o dedo com a mão direita e, com a esquerda, arrancou o quepe do general num tapa insubordinado. No Natal de 1968, poucos dias após a edição do AI-5, quando o governador Luís Viana Filho sofria pressão da linha dura do regime militar, o atrevido Antonio Carlos avisou num discurso na prefeitura de Salvador: "Não tenho medo do apito do guarda-noturno. Aqui não tem ladrão."

Ele dizia não ter medo, também, do Serviço Nacional de Informações, o temido SNI. Em 1972, o general Carlos Alberto Fontoura, chefe do organismo, pediu explicações por escrito sobre um encontro com o cassado Juscelino Kubitschek no restaurante do Country Club, no Rio. ACM respondeu, confirmando e anunciando que ele e o ex-presidente haviam combinado um jantar para a semana seguinte: "Jantar este para o qual o sr. está convidado, general", provocou o então governador da Bahia. O general não compareceu, mas reagiu com um telegrama ambíguo mostrando que o buraco era mais em cima: "Outra atitude não poderia esperar de V. Sa. o Sr. Presidente da República, general Emílio Garrastazú Médici. Assinado: Carlos Alberto Fontoura.". Em 1979, contra as recomendações do SNI e seu chefe, general Octávio Medeiros, ACM cedeu o Centro de Convenções de Salvador para que a União Nacional dos Estudantes (UNE) fizesse seu primeiro congresso fora da clandestinidade.

"Fui ao enterro dele e irei ao seu"

No caso de JK, o chefe do SNI se mostrou muito mal informado. Juscelino era velho amigo do pai de ACM, e este se transformou num "embaixador" informal da Bahia junto ao presidente da República, quando se elegeu deputado federal, em 1958. Integrante da ala "chapa branca" da UDN, assim chamada porque fazia uma oposição moderada ao Partido Social Democrata (PSD) no poder, ACM passou a ser conhecido como "despertador de JK": ligava todo dia às 7 horas para longas conversas com o presidente. Sua amizade o fez mensageiro da notícia de sua cassação, em junho de 1964. No exílio, JK lhe mandava cartas afetuosas, que ACM guarda com emoção e orgulho. No dia em que JK morreu, em 1976, enquanto o Planalto hesitava em decretar luto oficial, ACM ligou para o general Golbery, o estrategista-mor do regime, para avisar que iria ao enterro do amigo. Dias depois, outro chefe do SNI, o futuro presidente João Figueiredo, ainda mais atrevido, ousou interpelá-lo. "Fui ao enterro dele e irei ao seu", respondeu ACM.

Nos anos de chumbo da era Médici (1969-1974), o clima sufocante da ditadura esmagava qualquer contestação. A repressão militar dizimava os dissidentes de esquerda. Não era nada prudente dar um emprego a eles. Apesar disso, a empresa que ganhou a concorrência da prefeitura de Salvador para construir o Viaduto dos Engenheiros, na gestão de ACM, tinha como diretor uma figura maldita para o regime: o ex-deputado Rubens Paiva, que meses depois seria "desaparecido" pela repressão. No auge do fechamento político, ACM era capaz de dizer que o AI-5 "não fazia mal a ninguém", mas mostrava seu pragmatismo aos amigos mais próximos: "Se este país virar comunista, um dia, serei o maior líder de esquerda do Brasil."

O escritor Jorge Amado, um marxista, engoliu em seco quando da segunda indicação biônica de ACM para governador, em 1979, e lhe telegrafou de Paris: "Sou contra você, mas não sou burro." Mesmo quem era contra, mas não era burro, reconhecia que a estréia de ACM na administração mostrara que ele não era competente apenas na tribuna parlamentar. Prefeito biônico de Salvador aos 40 anos, ACM conseguiu que o Planalto mudasse a lei para antecipar em dois meses sua posse – assumiria, assim, dias antes que seu protetor, o presidente Humberto de Alencar Castello Branco, passasse o poder ao sucessor, marechal Arthur da Costa e Silva, seu inimigo. Com isso, ACM pôde chegar à prefeitura com os cofres cheios, em 1967, preparado para enfrentar a dieta de verbas imposta por Brasília. E conseguiu, em três anos, revolucionar Salvador.

A cidade de traçado antigo, encarapitada em morros de ruas estreitas, tinha um trânsito caótico e ladeiras tão íngremes que os ônibus com freqüência deslizavam de ré. Uma delas ganhou, por isso, o nome de Quebra-Bunda. ACM aproveitou o traçado dos rios e córregos que cortavam a cidade e abriu seis grandes "avenidas de vale", interligadas por viadutos que fazem o tráfego fluir sem nenhuma preguiça ou susto. A gestão de ACM na prefeitura tornou-o candidato natural a governador, na eleição indireta de 1970. No governo Médici, quando o partido situacionista, a Arena, era sinônimo de ditadura, ACM, embora arenista, era um biônico popular. Levou a luz da hidrelétrica de Paulo Afonso para a capital, tirou a burocracia do centro histórico e a levou para o moderno Centro Administrativo, pavimentou estradas e livrou a Bahia da dependência do cacau, do qual o Estado tirava nada menos de 60% de sua renda. Surgiu o Centro Industrial de Aratu e, com a força de Médici no Planalto e de Geisel na Petrobrás, o Pólo Petroquímico de Camaçari. Indicado para um segundo governo biônico, em 1978, abriu uma nova linha-tronco a partir de Paulo Afonso, levando energia para a esquecida região do Vale do São Francisco, o interior mais pobre do Estado.

Entre uma sucessão e outra, ACM desafiou lideranças e atiçou ressentimentos, convencido de sua própria força. Desprezando aliados de outras campanhas, ungiu solitário o herdeiro Clériston de Andrade, presidente do Banco do Estado da Bahia, para sucede-lo na primeira eleição pelo voto direto, em 1982. O candidato morreu um mês e meio antes da eleição, na queda de um helicóptero. ACM, com esse episódio, parecia ter sucumbido na política, mas ressuscitou ao lançar para governador o nome de um político obscuro, dispensando acintosamente o apoio dos líderes no Estado. Contra todas as evidências, o deputado João Durval, secretário estadual de Saneamento, elegeu-se governador com 580 000 votos de vantagem sobre o candidato do PMDB, Roberto Santos. Durval era um enigma político e ACM sabia disso: "Elegi um poste", reconhece hoje o criador, renegando a criatura, agora mais um adversário seu na arena política baiana.

O quilômetro que tinha 700 metros

À estrondosa vitória de 1982 seguiu-se a atordoante derrota de 1986, a maior da carreira de ACM. Os inimigos se juntaram e massacraram o então poderoso ministro das Comunicações, derrotando o seu candidato, Josaphat Marinho, e levando ao poder Waldyr Pires, do PMDB, com uma humilhante vantagem de 1,5 milhão de votos. ACM, às vésperas da eleição, chegou a brigar com o Ibope, duvidando da tragédia iminente. "Foi o nosso maior acerto – 32% de diferença", rememora o diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. "Acertamos na bucha. Depois dessa, Antonio Carlos passou a respeitar as pesquisas." ACM só não respeitou o governador eleito, que passou a viver à míngua de recursos federais. "As verbas foram bloqueadas em Brasília pelo ACM, que dizia que a Bahia, no meu governo, não teria nem pão nem água", lembra Waldyr, contando que o presidente Sarney chegou a cometer a deselegância de visitar o Estado sem avisar o governador. O próprio Sarney admitiu a um amigo: "Eu não gostaria de ter um inimigo como ACM."

O que ninguém previa, nem mesmo o PMDB, é que o sucesso de 1986 se transformaria em fiasco, dois anos depois: Waldyr Pires abandonou o governo para ser o vice de Ulysses na chapa do partido na eleição presidencial de 1989. O eleitor sentiu-se logrado e o governo caiu nas mãos do vice, Nilo Coelho, que se transformaria no alvo preferencial de ACM na sua campanha anticorrupção para voltar ao governo da Bahia pela terceira vez – agora, ao contrário das anteriores, purificado pelas urnas. Acusando Nilo Coelho de ter comprado fazendas, uma fábrica de cerveja, uma revendedora de automóveis e uma emissora de TV de 6 milhões de dólares após a saída de Waldyr Pires, ACM batia duro: denunciou que Nilo puxara 200 quilômetros de rede elétrica para dentro de suas fazendas e inventara o quilômetro de 700 metros. "Os outros 300 eram a comissão", ironiza. "Tive que restabelecer o sistema métrico na Bahia."

OAS ou "Obrigado, Amigo Sogro"

É pelo flanco da corrupção que os adversários tentam alvejar ACM, aparentemente sem muita pontaria. Como é que um político, só com o salário de ministro ou de governador, pôde formar o maior império de comunicação da Bahia?, questionam os inimigos de ACM. Nada se prova, até porque nenhuma dessas empresas está sem seu nome. O jornal Correio da Bahia, o terceiro mais vendido no Estado, com 20 000 exemplares diários, está em nome do outro filho, ACM Júnior. As emissoras no interior do Estado estão em nome de "pessoas amigas", como as apresenta o próprio ACM. E a TV Bahia, que capta o sinal da Globo há cinco anos graças ao link direto entre ele e Roberto Marinho, é ou não é de ACM? "É e não é. É dos meus filhos. Eles é que usufruem."

Os adversários batem também, por tabela, numa sigla subsidiária: a OAS (Olivieri, Araújo e Suárez), a segunda maior empreiteira do país, logo atrás da C.R. Almeida, com 20 000 funcionários, 100 canteiros de obras plantados no país e faturamento de 1,2 bilhão de dólares. Quando o dono da OAS, Cear Matta Pires, se casou com Teresa Helena, filha de ACM, a sigla ganhou uma tradução venenosa: "Obrigado, Amigo Sogro". No seu primeiro governo, nenhuma obra foi contratada. No atual, alguns serviços foram ganhos pela OAS, porque atenderam ao preço mínimo, conforme exigência de ACM. A principal obra do Estado, contudo – a "Linha Verde", estrada de 142 quilômetros unindo a Sergipe o litoral norte baiano, ao custo de 53 milhões de dólares – foi ganha pela maior concorrente da OAS no Estado, a Odebrecht.

A cobrança é implacável porque ACM, sempre que pode, deixa clara sua antipatia pela chamada "república das empreiteiras". A um empresário que queria saber as razões dessa antipatia, ACM explicou: "Quando vocês cedem uma única vez e pagam comissão a um político corrupto, colocam sob suspeição todas as outras atividades da empresa, mesmo as mais honestas." Foi a ele que alguns empreiteiros recorreram, em 1991, quando se assustaram com a gula inesperada de personagens muito próximas ao presidente Fernando Collor de Mello. A comissão de praxe paga pelas empreiteiras tinha saltado de 14% para 20% ou 25%. ACM começou a perceber, então, o tamanho da influência de PC Farias sobre o governo, mas, segundo diz hoje, não avaliou bem o poder do tesoureiro sobre o próprio presidente – embora já existissem evidências dela. Ainda na fase de campanha, quando Collor atacava Sarney e ele era ministro das Comunicações, ACM foi chamado pelo candidato do PRN para uma conversa sigilosa, no Lago Norte de Brasília. Mas, em vez da Casa da Dinda, o encontro aconteceu na residência ao lado, sob o testemunho solitário do insinuante dono da casa – PC Farias.

Na fase de montagem do governo Collor, o ardor collorido do cacique baiano começou a desbotar quando o presidente eleito lhe anunciou, entusiasmado, o nome do futuro ministro da Justiça, Bernardo Cabral. "É o homem da Constituinte, o homem que Ulysses queria", festejava Collor. ACM diz que tentou soprar o nome do médico Adib Jatene para integrar a equipe, mas desistiu ao saber que os alquimistas do Bolo de Noiva, o anexo do Itamaraty onde se articulava a estrutura do novo governo, tinham cravado Luís Romero Farias – irmão de PC – como secretário-geral da Saúde, antes mesmo da escolha do futuro ministro daquela pasta. No segundo semestre de 1991, como quem dá a senha, ACM começou a dar entrevistas em Salvador denunciando a roubalheira que tomava vulto sob o manto do governo Collor. "Rouba-se muito e pune-se pouco", esbravejava.

Mas ele mesmo é cobrado, semanalmente, por sua forçada convivência com a malfalada classe dos empreiteiros. Sábado e domingo ele descansa com a família na casa do genro Matta Pires, erguida num terreno que ACM tem na praia da Penha em Mar Grande, na Ilha de Itaparica. É o encontro de rotina do genro e do sogro, ele garante, nunca do empreiteiro e do governador. "Mas ninguém acredita", lamenta-se ACM, com ar resignado. Passageiro freqüente do jatinho Citation azul e branco da EBTA, a empresa de táxi-aéreo da OAS, ACM procura desfazer qualquer insinuação ou constrangimento ético: "Ela teve o melhor preço numa licitação pública", argumenta. "E a fatura é paga através de publicidade na TV e no jornal de minha família. Acaba saindo bem mais barato para o Estado."

Anos atrás, acusado de corrupção pelo deputado federal Elquisson Soares, do PMDB baiano, ACM o desafiou a comparar as declarações de renda de ambos. Exibiu a sua, o deputado não. "A Receita Federal foi investigar e descobriu que ele não declarava imposto de renda havia dois anos", conta. Na CPI da NEC, na qual era acusado de infernizar a vida do empresário Mário Garnero para forçar a entrega da empresa ao amigo Roberto Marinho, autorizou por fax o relator Luiz Carlos Santos, deputado do PMDB paulista ligado a Orestes Quércia, a quebrar seu sigilo bancário. "Mas, não sei por que, o deputado engavetou meu fax", diz ACM. Atento aos detalhes, recebeu um dia um pedido de audiência do bicheiro carioca Castor de Andrade, interessado em abrir uma indústria pesqueira. Sem saber direito que bicho ia dar, deu uma ordem inusitada à secretária: "Manda ele entrar, mas deixe a porta aberta..."

A porta de sua vida privada e familiar, contudo, ele nunca abre. Nem permite que batam nela. Nenhum de seus parentes, afirma, tem a carteira profissional assinada pelo Estado. Apesar disso, a oposição bate implacavelmente numa tragédia pessoal de ACM. A cada eleição, uma história antiga, o caso Juca Valente, é exumada com frieza de legista. Em janeiro de 1975, o primeiro marido de Teresa Helena, José Fernando Marques dos Reis Valente, o Juca Valente, de 27 anos, teve uma discussão feia com a mulher. Horas depois, foi encontrado morto com um tiro na cabeça, num caso definido oficialmente como suicídio. Apesar disso, o episódio passou a ser uma assombração política sazonal para ACM. A mãe de Juca, Maria Celina, está convencida de que o filho foi assassinado por haver desafiado a ira do sogro poderoso. Por duas vezes, em 1975 e 1988, ela tentou acionar a Justiça, mas em ambas o Ministério Público rejeitou o pedido, alegando falta de provas. "Isso é uma indignidade, que não respeita nem mesmo a dor pessoal de minha família e que a oposição insiste em explorar, da maneira mais vil", revolta-se Antonio Carlos, quando o caso é mencionado.

Na Bahia, vale a pena ser assaltado

Na eleição de 1990, Juca Valente ressuscitou mais uma vez. Nessa campanha de 10 milhões de dólares, um item indispensável no palanque high-tech de ACM era o telefone, pelo qual tomava conhecimento do tom empregado pela oposição no horário da propaganda política. E foi pelo telefone que ele soube, antes de fazer seu discurso num comício na cidade de Itapetinga, a 600 quilômetros de Salvador, que a campanha do ex-governador Roberto Santos, seu adversário direto, tocava mais uma vez no episódio Juca Valente. ACM desceu do palanque, sem falar aos eleitores, foi para o aeroporto, pegou o jatinho, voltou para a capital, gravou sua resposta e sua revolta no programa de televisão e retornou, no mesmo dia, para o interior.

Apesar da insistência com que é trazida à tona, a história da morte do genro ainda é capaz de produzir nele um misto de revolta e emoção, que o deixa com os olhos avermelhados. Mas nada se compara à dor causada pelo suicídio de sua filha caçula, Ana Lúcia, que morreu em novembro de 1986, aos 28 anos (poucos dias, aliás, após a derrota por 1,5 milhão de votos para Waldyr Pires). No cemitério, o choro incontido mostrou que nada fragilizou tanto o coração de ACM como a morte de Ana Lúcia, tida como a predileta entre seus quatro filhos.

Com marcas tão fundas em sua vida pessoal, Antonio Carlos não admite que se cruze a fronteira doméstica em nome dos interesses – maiores ou menores – da política. Na campanha de 1990, apareceu um certo dia em seu QG eleitoral uma loira vistosa, acompanhada de um garoto e de um advogado esperto. O rábula queria oferecer o depoimento da mulher, no horário político, acusando a paternidade irresponsável de um poderoso adversário político. Era a versão baiana de Miriam Cordeiro, a ex-namorada de Luiz Inácio Lula da Silva que o torpedeou na campanha presidencial de 1989. ACM conta que, enojado, mandou expulsar o trio de seu comitê: "Política não se mistura com vida privada", advertiu.

Duro com gente de fora, o governador baiano é implacável com sua própria equipe. Quando o telefone toca, às 7 horas da manhã, o secretário premiado já sabe que é ele, ligando após a leitura dos jornais. Ele tem obsessão por telefone, o primeiro instrumento que pega de manhã cedo e o último que larga, já de madrugada. Com ele faz uma ronda, via DDD, pelos principais gabinetes de políticos e empresários e pelas redações dos principais jornais e revistas do país (leia quadro no final da reportagem). Dono de uma memória fotográfica, que anota nomes e datas com precisão de relojoeiro, ACM registra na cabeça mais de 300 telefones. Não gosta de reunião coletiva de secretariado e prefere dar espaço à sua equipe, mas sempre marcando sob pressão. Segue um mandamento de Metternich, o conservador chanceler austríaco que arrumou a Europa após a confusão das Guerras Napoleônicas, no início do século XIX: "A liberdade é atributo da ordem." Traduzindo: vacilou, dançou.

Demitiu o secretário da Segurança quando, no dia 15 de janeiro de 1992, quinze turistas argentinos foram assaltados em Salvador. Recebeu o grupo em palácio, indenizou cada um com 1 000 dólares, pagou o hotel e os levou a passear pela cidade. O embaixador argentino em Brasília, agradecido, foi a Salvador para lhe entregar uma condecoração do país, o jornal Clarín de Buenos Aires festejou em editorial, dizendo que "vale a pena ser assaltado na Bahia", e o governador acabou sendo recebido, por mais de uma hora, por um encantado presidente Carlos Menem.

No ranking da preferência popular, ACM disputa palmo a palmo com o cearense Ciro Gomes o título de melhor governador do país, afirma Carlos Augusto Montenegro, o diretor do Ibope. "ACM é um anjo para a opinião pública e um demônio para os políticos", supõe Montenegro. Para uns e para outros, o veterano cacique aparece sempre impecavelmente trajado, em geral de terno e gravata, indiferente ao sol implacável da Bahia. Gosta de gravata listrada, especialmente com o azul, vermelho e branco da bandeira baiana, mas não suporta marrom. Não usa e não gosta de receber gente vestida com esta cor. É uma de suas raras superstições – como a preocupação de nunca ter 13 convidados à mesa generosa da ala privada do Palácio de Ondina, uma antiga casa de estilo colonial debruçada sobre o azul hipnótico do mar de Salvador.

Existem sempre convidados compartilhando o almoço ou jantar com ele e a mulher, dona Arlete. ACM passa ao largo dos pratos tradicionais da aromática cozinha baiana. Limita-se, hoje, a uma dieta de bifes grelhados ou carne branca com acompanhamento de legumes. Seu peso atual, 93 quilos, já dois pontos acima do recomendável, mas é difícil imaginar ACM sem aquela rotunda barriga que lhe dá uma silhueta de pai-de-santo ou de um coronel da política nordestina. E os devotos mais próximos sabem que, contrariando as ordens médicas, ele não resiste ao prazer proibido de duas ou três "punhetinhas" após as refeições. Calma! "Punhetinha" é o nome popular do "bolinho de estudante", sobremesa que mistura tapioca, açúcar e canela e que faz Antonio Carlos se derramar de ternura. Marca registrada da baianidade inventada por Dorival Caymmi, os seus cabelos brancos combinam com o bigodinho ralo e estão sempre penteados para trás. Profissional do corpo-a-corpo na política, ACM só não gosta que lhe perturbem a ordem impecável dos cabelos. Nas campanhas eleitorais, além do telefone, existe sempre uma assessora próxima com um pote de gel e um pente para remediar um afago mais entusiástico ou uma inesperada corrente de ar.

Trabalhar com o governador da tórrida Bahia é, literalmente, uma gelada. Seu gabinete em Ondina não tem janelas e, além das estantes cheias de livros até o teto, exibe com destaque dois poderosos aparelhos de ar condicionado que dão a ACM e seus visitantes a sensação de que a capital da tropicália resvalou para algum ponto da gélida Patagônia: a temperatura ambiente não sai de 19 graus, enquanto do lado de fora o termômetro marca, como de hábito, mais de 32 graus. Atravessar aquela porta produz nos incautos um verdadeiro choque térmico.

"Eu rezei, mas não me confessei"

Católico, devoto de Santo Antônio, ACM tem Ogum como seu orixá, o santo guerreiro do ferro e da guerra, cujos "filhos" são impetuosos, autoritários, desconfiados – como o próprio ACM. Ele diz que não liga para isso, mas a lenda fala mais alto. Em abril de 1988, o mais famoso pai-de-santo de Brasília, Pai Paiva, sacrificou um boi, quatro carneiros e oito galinhas-d’angola em oferenda a Xangô, o orixá da justiça. Descobriu-se que o boi vivo tinha sido ofertado por um ministro, Prisco Viana, da Habitação e do PMDB. Ministro baiano em terreiro só podia ser "despacho de umbanda" – e a ameaça acabou chegando, meio atravessada, ao terreiro de outro ministro e rival baiano, o desconfiado Antonio Carlos Magalhães, da Comunicações e do PFL.

Coincidência ou não, cinco meses depois um misterioso incêndio destruiu em menos de uma hora os seis andares do Ministério da Habitação, na W-3 Norte em Brasília. Só a garagem, no subsolo, ficou intacta. Queimou tudo, especialmente o arquivo pessoal de 25 anos de vida partidária de Prisco, incluindo fichas de eleitores, registros de conversas e anotações sobre episódios da política brasileira. Especialistas do candomblé dizem que os fatos estão relacionados, mas isto tudo pode ser apenas mais uma lenda baiana. ACM reagiu com uma gargalhada, quando ouviu a história de Playboy: "Engraçadíssimo, nunca tinha ouvido falar nisso.".

Quando se trata de ACM, acredita-se em lendas e duvida-se de fatos. Em fevereiro de 1989, ele sofreu um infarto violento na sua casa de Itaparica e sobreviveu por milagre. Na madrugada de sábado para domingo, ele via na TV o massacre de Mike Tyson sobre Frank Bruno, pelo título mundial dos pesos-pesados. O soco fatal do campeão pareceu atingir ACM em cheio: uma cólica fulminante lhe tirou o fôlego. Ele ainda viu Bruno cair e, minutos depois, era a sua vez de tombar no sofá. Atravessou a madrugada com a ajuda de comprimidos. Levado para o Hospital Português de Salvador, escapou mais uma vez, e por pouco, da morte. A cineangiocoronariografia já estava pela metade quando inesperadamente a máquina quebrou, interrompendo o exame. "Se tivesse continuado, o coração teria explodido, pois a região infartada estava muito fragilizada pela violência do infarto", avalia ACM.

Essa ameaça só foi percebida ao ser levado de avião para o Instituto do Coração, em São Paulo. Estava tão debilitado que teve que aguardar seis semanas até enfrentar o bisturi. Nesse meio tempo não deixou de continuar bem informado. Era mantido longe do telefone, mas isso não evitava que as notícias de primeira mão chegassem até ele. No leito do Incor, ACM foi a primeira pessoa, fora do círculo familiar, que soube que o coração do octogenário Roberto Marinho também tinha sobressaltos, só que de outra natureza. Protegido pelo sigilo hospitalar, o dono da Rede Globo confessou ao amigo que estava apaixonado por Lilly de Carvalho, a ponto de se submeter a um novo casamento. Quando a hora da operação finalmente chegou, carregada dos riscos que o médico Antonio Carlos bem podia avaliar, ele teve um derradeiro encontro com seu maior apoio espiritual – o cardeal do Rio de Janeiro, Eugênio Salles, um amigo de quase 30 anos. A sós, rezaram juntos no quarto. "Mas não me confessei", avisa ACM.

E lá foi ACM, com o traseiro de fora

Passou nove horas e quarenta minutos na mesa de operações do Incor, em São Paulo, numa das mais difíceis cirurgias da carreira do experiente Adib Jatene, que já realizou mais de 20 000 operações desse tipo: três vezes o coração parou e ele, tecnicamente, morreu. Reanimado por equipamentos sofisticados, o músculo voltou a pulsar e ACM saiu dali com duas pontes de safena, duas pontes mamárias, um pedaço de pericárdio bovino e uma membrana de teflon implantados para reconstituir 20% do ventrículo esquerdo. A carga de anestesia empregada para uma cirurgia tão prolongada e complexa acabou alterando o seu agudo senso de realidade. Alguns dias após a circurgia, ACM despertou de madrugada num estado de franco delírio. Com a memória bloqueada por tanta química, imaginou estar num hotel. Levantou-se da cama, saiu do quarto, atravessou o corredor, pegou o elevador e desceu, sem despertar a atenção de nenhum médico ou enfermeira. Foi descoberto perambulando, desorientado, no estacionamento do hospital, vestindo apenas aquela ridícula túnica de paciente, amarrada nas costas por um laço precário que deixa o traseiro exposto ao vento.

Apesar disso, na época um deputado do PDT baiano estava convencido de que tudo não passara de uma armação ilimitada de ACM: "Isso é coisa do SNI", afirmou. "Ninguém viu a cicatriz." Mas ACM não perde tempo com subalternos. Ele gosta mesmo é de se nivelar aos maiores. No caso do PDT, bate de frente com o líder máximo do partido, Leonel Brizola, com quem já brigava no início dos anos 60, quando ambos freqüentavam o plenário da Câmara dos Deputados. "Brizola é um ingrato, deve a vida a mim", brinca, relatando a cena em que apartou uma briga, em 1963, entre o então deputado do PTB de Jango e seu maior desafeto na época, o hoje senador capixaba João Calmon. Brizola partiu para cima de Calmon e foi contido por ACM, que conta: "Ele iria morrer, na certa, pois Calmon carregava sempre um revólver num coldre sob a axila."

No ano passado, cansado de ver tanto dinheiro do governo Collor sendo canalizado para a "Linha Vermelha" de Brizola – a via expressa que liga o centro do Rio de Janeiro à Ilha do Governador -, ACM batizou de "Linha Verde" a sua rodovia do litoral norte baiano. "Não adiantou nada", lamenta-se. "Dos 53 milhões de dólares, não recebi mais do que 4 milhões de repasse federal." Em março, irritado com a propaganda do PDT na campanha do plebiscito, que incluiu ACM na panelinha dos parlamentaristas, ele mandou um fax bem-humorado a Brizola, pedindo para corrigir o equívoco. "Apesar de alguns adeptos do sistema, também sou presidencialista", avisou, esclarecendo que o parlamentarista da família é seu filho, Luís Eduardo, líder do PFL. "Aliás, como é bom ter um filho que nos dá grandes alegrias!", cutucou ACM, arranhando a fronteira familiar que ele tanto preza com uma alusão venenosa às dores de cabeça que Brizola volta e meia tem com sua irrequieta filha Neuzinha. E terminou com uma típica conclusão de Toninho Malvadeza: "Tenho motivos para acreditar que este equívoco não deve ter sido maldade de sua parte", provocou.

Na Bahia de todas as crenças, existe um ditado muito vivo que resume a realidade fantástica da nação baiana: "Aqui, traficante se vicia, prostituta goza e cafetão se apaixona." No terreiro do poder, Antonio Carlos Magalhães é um orixá que, na política, vicia, tem prazer e apaixona. Às vezes parece anjo, às vezes demônio. Um orixá capaz de enternecer, mas sem perder a malvadeza jamais.

***

Jornalista ligou, ele atende

Venha de onde vier, a ligação de um repórter para o telefone 247 0022, em Salvador, nunca será desperdiçado. Ali, no Palácio de Ondina, residência do governador, vai atender outro repórter, talvez o melhor repórter político do país. A voz firme e a risada debochada vão identificar Antonio Carlos Magalhães. Afastado há trinta anos das redações, ele soube se manter próximo dos jornalistas mais importantes do país.

Por isso mesmo, o ginasiano que estreou precocemente no jornalismo, aos 16 anos, cobrindo futebol para o vespertino Estado da Bahia, ganhou agora em maio o reconhecimento definitivo da profissão que abandonou em 1960 para se dedicar integralmente à política: ACM foi devidamente identificado, em on, como a melhor fonte política da imprensa brasileira. No livro recém-lançado Manual da Fonte – Como Lidar com os Jornalistas, o repórter Geraldo Sobreira entrevistou alguns dos principais colunistas, repórteres políticos e chefes de redação no eixo Rio-São Paulo-Brasília para chegar à informação de cocheira que todo mundo já tinha: ACM, para o bem ou para o mal, é o grande informante da política. (A segunda melhor fonte, segundo o livro, é o chanceler Fernando Henrique Cardoso).

"ACM é o primeiro escalão da notícia", afirma Sobreira. "Ele sabe o que interessa e a quem interessa.". O jornalista Marcos Sá Correa, ex-editor do Jornal do Brasil e hoje editor especial da revista VEJA, acrescenta: "Antonio Carlos não é um mero depósito de informações. É uma fonte que sabe o que é notícia, com capacidade de analisar e de saber o peso que as coisas têm." O diretor da sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo, Gilberto Dimenstein, completa: "É um político ultra-intuitivo, experiente, com inteligência acima da média." Desde sua estréia como deputado federal, em 1958, ACM tem acompanhado de perto os fatos mais significativos de nossa História – às vezes centralizando a própria notícia, como no caso da resposta desaforada ao brigadeiro Délio Jardim de Mattos, que o acusava de desertar da candidatura Maluf, em 1984. "Trair a Revolução é fazer o jogo de um corrupto", devolveu ACM, tirando o uniforme de "Toninho Malvadeza" da ditadura para vestir a camiseta de "Toninho Ternura" nos palanques das diretas.

ACM é o político que, como todo bom repórter, tem o talento e a sorte de estar ao lado da notícia na hora certa. Antes de redigir sua dura resposta ao ministro da Aeronáutica, ligou para o dono da Rede Globo. "Roberto, vou responder", avisou, com a autoridade e a intimidade de um dos raros brasileiros dispensados de chamar o jornalista e empresário Roberto Marinho, seu amigo há 35 anos, de "doutor" – reverência observada, aliás, por qualquer presidente da República, civil ou militar. Ligar para "Roberto", de fato, é uma rotina diária de ACM, que telefona para informar e ser informado.

Ele nunca deixa de atender ou retornar uma ligação, sem consultar agenda, apelando sempre para sua memória, que lhe permite relatar episódios com datas e detalhes fotográficos. Nos anos agitados de Juscelino, Jânio e Jango, nos bastidores do golpe de 1964, na sombra dos governos dos generais-presidentes, na transição para a democracia, no dramalhão do governo Collor, ACM movimentou-se com a agilidade de político e a curiosidade de repórter – e desenvolveu uma invejável capacidade de avaliação dos últimos 40 anos da política brasileira. Todas as sucessões presidenciais, a partir da queda de Jango, em 64, tiveram em ACM um profeta preciso. Até quando apoiou o coronel e ex-ministro Mário Andreazza, ele sabia que o vitorioso no Colégio Eleitoral de 1984 seria o nome do consenso – Tancredo Neves -, nunca Paulo Maluf. Por isso, antes mesmo da convenção do PDS, Antonio Carlos já manobrava a dissidência governista para apoiar a chapa da Nova República, a que ele acabou servindo como único ministro civil a atravessar todo o governo Sarney, na pasta das Comunicações.

Essa intimidade com o poder não evitou, porém, que ele cometesse o maior erro de avaliação de sua carreira: o apoio a Fernando Collor. "Ele sabia que havia ladroagem, chegou a pedir a cabeça de PC Farias, mas não acreditava no envolvimento do presidente, nem no impeachment", diz um dos políticos mais ligados a ACM. Na verdade, acerta bem mais do que erra. Por isso, seu telefone não pára de tocar, mesmo durante as refeições. Nessas horas impróprias, ele tem um truque para abreviar a conversa: coloca uma garfada generosa na boca e só então pega o telefone. Fala mastigando com o repórter, para lembrar sem sutileza que a conversa não deve atrapalhar o almoço ou jantar. Mesmo quando o chamado é da Folha de S.Paulo, que costuma criticá-lo, ele não deixa de ser gentil com o repórter. "Teu jornal não gosta de mim, mas eu gosto muito de você", declara, antes de entrar no assunto. Ele prefere também jantar em paz. O que não impede que, terminado o cafezinho, volte ao telefone, após a meia-noite, para mais uma rodada de conversa, madrugada adentro, com jornalistas dos grandes centros.

Fala tudo, sem constrangimentos, e apela pouco para o off, a notícia sem citação da fonte. Afinal, ACM é a própria notícia, fale o que falar. Alguns respeitáveis nomes da imprensa lhe atribuem a paternidade de uma impiedosa classificação de jornalistas em dois times distintos: os que querem favores, na forma de emprego ou dinheiro, e os que querem notícia. "O importante é que não se faça confusão, oferecendo favores a quem busca notícia ou dando notícia a quem quer favores" – teria sido esta a engraçada conclusão de ACM, que nega com veemência a autoria da frase e a visão indelicada para com a classe jornalística.

Com exclusividade para Playboy, ACM listou as sete regras capitais de sua manual da boa fonte:

1. ser bem informado;

2. ter credibilidade;

3. confiar no repórter;

4. nunca colocar o repórter na pista errada;

5. dar a devida importância a cada jornal, cada coluna, cada repórter;

6. municiar o repórter para que ele não desperdice a ligação telefônica; e

7. fazer o repórter acreditar que ele é tão importante quanto o dono do jornal.

Nem sempre isso é possível. Tempos atrás, ele travou uma batalha divertida com Gilberto Dimenstein. Baseado num documento da Procuradoria-Geral da República, o jornalista disse que o governador da Bahia recebia uma aposentadoria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia sem nunca ter dado aula. ACM, de fato, embolsa a aposentadoria, mas não precisou provar que ela corresponde a aulas que tenha dado: uma ação popular contra ele movida na campanha de 1990 acabou prescrevendo. Ao ler o artigo de Dimenstein, respondeu com um telegrama pedindo que ele fornecesse "o atual endereço da senhora sua mãe para enviar a respectiva aposentadoria". Um assessor não entendeu o "atual". Ele explicou: "É para o jornalista pensar que eu conheço o endereço antigo..." Dimenstein replicou, zombando do português precário da ofensa, que apelava para um "destinto (sic) jornalista". ACM descobriu que o dicionário registra "destinto" como "sem tinta". As provocações continuam. "Vejo que eu e o Dimenstein estamos pensando a mesma coisa do governo Itamar", brinca Antonio Carlos. "No caso de ACM, o jornalista não deve ficar nem tão próximo que não possa informar, nem tão distante que não possa ser informado", adverte Dimenstein. Na verdade, uma lição útil para qualquer repórter e toda boa fonte. E sempre saudável para o leitor. (Luiz Cláudio Cunha)


enviada por Saaato!!



12/06/2007 22:59
Para quem acompanha o caso RCTV

Galera, sobre a nao renovacao da RCTV, surgiram alguns argumentos legalistas:


"E a "democracia deles", de acordo com a Lei de Responsabilidade Social em Rádio e TV da República Bolivariana da Venezuela (de 7/11/2004), prevê uma sucessão progressiva de sanções – advertências, suspensão da programação por 72 horas e em caso de reincidências, embargo do canal pelo prazo de cinco anos – antes da suspensão final da concessão.
O ato de Chávez contra a RCTV, apesar das afirmações peremptórias sobre a sua legalidade, não obedeceu à legislação do seu país: foi discricionário, autoritário e antidemocrático."


Mas logo surgiram contrapontos:


"a RCTV cometeu inúmeras infrações que lhe valeram o fechamento por 24 horas a até 3 dias não pelo governo Chávez, mas em 1976, 1980, 1981, 1989 e 1991, pelos governos sociais-democratas ou democratas-cristãos que estiveram no poder na Venezuela. Mais recentemente, já no governo Chávez, em 2004 ela foi condenada pelo Juizado Superior de Tributos por sonegar quase um milhão de dólares de impostos. O Instituto Venezuelano de Seguros Sociais também denunciou a emissora por reter 224 milhões de bolivares de seus funcionários. Em maio de 2006, o Tribunal Superior de Justiça proibiu a transmissão de serviços de prostituição e de pornografia na RCTV."

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=437IPB001
e comentarios
enviada por Saaato!!



12/06/2007 22:21
Hj teve palestra da Virginia Fontes no curso do GEM. Valeu muito a pena matar a aula da pos!!

Putz, a compreensao dela sobre o capitalismo eh algo que parece descomunal. Assim como as primeiras palestras que assisti, com ela ali na frente, e falando sobre coisas tao impressionantes que eu mal conseguia acreditar que uma pessoa poderia ter um grau de abstracao e de empirismo tao alto.
A palestra dela foi sobre revolucao, e eh inacreditavel a sua capacidade de explicar apenas um conceito num vies historico, dando um claro significado do presente, de como estah o desenvolvimento do capitalismo! Depois de ela falar, tudo fica obvio!

Bem, deixando o elogio de lado, deixo um texto:




http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=437FDS001

SEMANA DE MODA
O lado feio do mundo fashion

Por Ligia Martins de Almeida em 12/6/2007

O repórter Daniel Bergamasco prestou um bom serviço aos leitores com a matéria "Cinderela do Lixão não virou princesa" (Folha de S. Paulo, 10/06/2007). Um bom serviço porque mostrou, especialmente às jovens que se fascinam com a celebridade de algumas modelos, o lado real dessa história, contado por Cristiane de Andrade, ex-catadora de lixo, hoje garçonete:

"Eu tive aqueles minutinhos de fama, de aparecer em TV e em revistas, como a modelo que veio do lixão. Era época do Fashion Rio e cheguei a desfilar. Na frente da TV, me prometiam tudo, contratos para ganhar R$ 2.000,00. Depois desconversavam. Dinheiro que é bom, nunca vinha. Era muita bajulação e pouca grana. No começo, eu ganhava R$ 200,00 aqui, uns R$ 300,00 ali. Depois passava um tempão sem trabalho. Tinha onde morar, mas não tinha salário. Estava comendo pior do que em Bangu. Foi quando decidi largar tudo. Fui à luta e estou feliz demais! Moro numa casinha boa, de um quarto, em Santo Amaro. E ganho muito mais aqui do que como modelo. (Uma garçonete no bairro do Itaim chega a ganhar R$ 2.000 por mês.)"

Palavra não vale muita coisa

Mas a matéria vai além da história pessoal da ex-catadora de lixo. Fica até mais interessante quando ela conta coisas que viu no assim chamado mundo "fashion":

** "Na agência, o cotidiano era angustiante, diz ela. O que a Mega [agência de modelos] fez comigo não é porque eu era do lixão. Faziam também com outras que não vieram de mídia. Faziam o quê? De não ligar, deixar ali sentada no tão famoso sofá da Mega o dia inteiro."

** "Conheci meninas que cheiravam [cocaína] para emagrecer. Vi muitas estragarem a vida. E também meninas lindas gastarem o dinheiro que juntaram para a faculdade para se manter em São Paulo e depois voltar para casa sem nada."

** "Tenho vontade de continuar, mas peguei medo de agência. A imagem que eu tenho do mundo da moda é de muita mentira. A palavra não vale muita coisa."

Carreira milionária

Ao contrário da Folha, o jornal O Estado de S. Paulo optou pela cobertura convencional, na matéria "Novas faces que ganham as passarelas". Os depoimentos das jovens modelos são para deixar qualquer aspirante com água na boca:

** "Estar aqui é tudo. Estou modelando há dois meses e meio e é incrível ter pego esse trabalho."

** "Estou há três anos só como modelo comercial, mas dessa vez resolveram me botar na passarela. Já viajei muito, passei três meses na China, cinco em Nova York, e três na Tailândia. Agora vejo que essa coisa da modelo fashion é muito difícil. Você tem que competir com as top."

Embora Gisele Bündchen tenha declarado que a era das "tops" acabou, as meninas que lêem revistas femininas, assistem TV e são bonitas vão continuar sonhando com a vida de modelo. E se os pais delas, que lêem jornal, perceberem uma chance de carreira milionária para a filha, vão preferir achar que a matéria com a ex-catadora de lixo é puro sensacionalismo da imprensa. Afinal, se o que se vê todo dia são matérias mostrando a maravilhosa vida das celebridades da moda, é aí que deve estar a verdade.


enviada por Saaato!!



31/05/2007 10:12
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=4&id={D72FEB31-4447-4B6F-A451-F5378E0F62F0}

O crime organizado na política nacional
Postado por Mauro Malin em 30/5/2007 às 8:21:38 PM



Ler o livro O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, do repórter Lucas Figueiredo, é como ser puxado pela manga do casaco: “Lembra-se do mensalão? Pois é... Nós já tínhamos esquecido tanta coisa...” Os personagens desfilam: políticos do PSDB mineiro e dirigentes nacionais do PT, integrantes da base aliada do governo Lula, banqueiros, espiões, secretárias, entregadores de dinheiro, policiais, motoristas, procuradores, artistas de CPIs.

Nesta entrevista ao Observatório da Imprensa, Figueiredo resume: “Hoje se tem uma grande ação entre amigos na política e nas instituições. Fica muito claro, por essas operações todas da Polícia Federal, que o nome disso é crime organizado”. Algo que a mídia, diz o repórter, não disseca, não aprofunda. O que, pode-se supor, contribui para a repetição dos casos.

Lucas Figueiredo é repórter especial do Estado de Minas, que pertence à mesma empresa dona do Correio Braziliense, onde suas reportagens também são publicadas. Trabalhou sete anos na Folha de S. Paulo, seis anos em Brasília e um em São Paulo. Nesse período escreveu o livro Morcegos Negros, que trata da investigação sobre o esquema PC-Collor e o crime organizado internacional. Depois saiu para fazer Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula, 1927-2005, que lhe tomou “três gloriosos anos”. Voltou para Belo Horizonte há três anos. Para fazer O Operador, tirou seis meses de licença do jornal.

Eis a entrevista.

Os grãos de areia

Seu livro termina com uma frase de Marcos Valério Fernandes de Souza: “Eu sou um grão de areia. Um grão...” Parece que a história se repete. Agora existe um Cláudio Gontijo.

Lucas Figueiredo – Aparece eventualmente o nome de algum corruptor, o nome de algum corrompido, mas sempre fica em evidência o operador. O grão de areia. E com o passar do tempo, como não acontece nada com o corruptor, às vezes com o corrompido acontece algum embaraço, que é o que está acontecendo com Renan Calheiros – ele pode, eventualmente, perder a presidência do Senado mas vai continuar na vida pública, daqui a pouco tem um outro cargo novamente.

Estamos falando de um suposto corrompido.

L. F. – Exatamente. No final das contas não acontece absolutamente nada. Nem com os corruptores, nem com os corrompidos. E aí o sujeito que é aquele que pega dinheiro de um lado e entrega do outro, esse acaba, por uma falta também de competência da imprensa para dissecar o cadáver da corrupção... Ela precisa criar um vilão, cria os Paulo César da vida, os Marcos Valério da vida, grãos de areia dessas histórias todas que acabam se transformando nos vilões da história, mas que, na verdade, têm uma importância muito colateral em tudo que acontece, porque são operários de esquemas de corrupção, que têm peças de reposição aos milhares. E a grande questão é: quem faz a corrupção no Brasil? Quem são os corruptores? A mídia nunca vai muito atrás, nunca é muito rigorosa em relação a isso.

Marcos Valério de volta à ativa

Como anda Marcos Valério? O senhor tem idéia da vida dele?

L. F. – Marcos Valério está aqui em Belo Horizonte, já circula bastante pela cidade, já não tem tanta timidez quanto há uns meses, vai a restaurantes, é visto eventualmente andando pela rua. E a informação que eu tenho é que ele voltou a fazer negócios. Está se associando a empresários, é um sujeito que tem as contas bloqueadas, mas a informação que se tem é de que ele participa de alguns esquemas empresariais.

No final do livro o senhor fala da "trinca ilesa": Eduardo Azeredo, Walfrido dos Mares Guia e João Heraldo Lima. Praticamente nem foram arranhados. Talvez uns arranhõezinhos na carreira de Eduardo Azeredo, perdeu o cargo de presidente do PSDB, cargo que não tinha grande importância, talvez. E os outros, não. João Heraldo Lima, não tenho a menor idéia do que faça na vida.

L. F. – É hoje diretor do Banco Rural.

Walfrido dos Mares Guia permanece incólume

E Walfrido dos Mares Guia, sabemos que ele é o grande operador político do presidente Lula neste momento. O senhor não acha isso algo extraordinário? Se a gênese da coisa funcionou como o senhor conta – e eu tenho a impressão de que o relato é correto, baseado em documentos, em material de imprensa acima de suspeição...

L. F. – E não fui contestado por absolutamente ninguém.

O livro foi lançado no ano passado?

L. F. – Em agosto do ano passado.

Então vai fazer dez meses. E nesse esquema uma figura realmente notável é Walfrido dos Mares Guia.

L. F. – Sim.

E o senhor fala também de algo chamado "modelo mineiro". Esse "modelo mineiro" parece que deu certo.

L. F. – Sem dúvida. Isso também é outra coisa com que a imprensa não mexeu, com alguma honrosas exceções, a Carta Capital fez alguma coisa, a Folha de S. Paulo começou a mexer, mas logo abandonou. Todo aquele esquema do Marcos Valério nasce aqui em Minas Gerais, sobretudo pela mão do [hoje] ministro Mares Guia. Exatamente aquela mesma coisa. Aqueles empréstimos falsos no Banco Rural, o dinheiro entra nas contas de Marcos Valério e acaba em contas de gente que estava disputando eleição, depois vem dinheiro do Estado para repor. As empresas do Marcos Valério conseguem contas, conseguem um dinheiro fácil das instituições do Estado em Minas Gerais e nisso tem um acerto de contas com o Banco Rural. Exatamente como vamos ver anos depois no governo do PT.

E é incrível como a imprensa não se interessou e não foi a fundo para apurar, porque na verdade estava tão fácil de ver – o mensalão, Marcos Valério, é parido no ninho tucano, e ele opera para o ninho tucano o tempo todo. Ao mesmo tempo que ele operava para o PT, ele continuava operando para o PSDB – em uma escala bem menor, porque, obviamente, quando o PT chega à presidência da República aquilo é uma mina de ouro. Antes, Marcos Valério operava para o PSDB em Minas Gerais; depois passa a operar para o PT em nível nacional. O prêmio dobra. Mas esse esquema é todo de Minas e do PSDB de Minas. E isso foi uma coisa que passou absolutamente batida. Mares Guia nunca foi incomodado por conta disso. Nunca nós vimos uma entrevista de Mares Guia ou uma manchete falando do nome de Mares Guia, Mares Guia é o pai da criança, e ele continua aí. E se você fizer uma pesquisa de opinião pública, talvez dê que 99,9% das pessoas não sabem que Mares Guia está envolvido com esse esquema do mensalão.

Vidas destruídas por malfeitos de poderosos

Uma coisa que a mídia também ignorou, e de que o senhor trata no final, trata de passagem, como, sem dúvida, era o caso, é a destruição de riqueza, de empregos, até de vidas. Há gente que ficou deprimida, que não conseguiu emprego... Isso também não foi objeto de alguma atenção correta da imprensa, me parece.

L. F. – Não, porque a imprensa sempre fica naquela coisa maniqueísta. Ela precisa de um herói e precisa de um vilão. Na medida que ela acha um sujeito que tem cara de vilão, se for careca, melhor ainda, se for feio, melhor ainda, se tiver alguns hábitos grotescos, melhor ainda; e se tiver alguma pessoa que encarne o papel do herói, que fale um pouco macio, que fale algumas palavras bonitas, a imprensa não costuma se preocupar com muita coisa mais. Tinha-se, em torno do escândalo do mensalão, vou chutar, no mínimo mil dramas pessoais de uma dimensão enorme, de pessoas que tiveram a vida arruinada. Trabalhadores, gente de bem que sempre teve conduta ilibada, e que deu o azar, por exemplo, de fazer uma carreira dentro de uma SMP&B [a principal empresa de Marcos Valério], às vezes como designer gráfico, às vezes como office boy, e essas pessoas ficaram marcadas um pouco por essa coisa da imprensa de criar selos. Se o sujeito trabalhou na SMP&B, ele é um corrupto, não importa se ele seja um designer gráfico ou o diretor da empresa: é tudo a mesma coisa.

Procurador geral da República atropelou Polícia Federal

Uma questão que me parece muito relevante em relação à cobertura da imprensa é o momento em que se descreve no livro algo que eu chamaria de "inépcia" da Procuradoria Geral da República. Ou seja, não se questionou a qualidade da denúncia. A denúncia, em parte, funcionou como uma espécie de satisfação para a opinião pública e para a própria mídia, que celebrou aquilo e disse: “Pelo menos alguém fez alguma coisa!” – o procurador geral fez uma denúncia contra os quarenta, etc. Mas o que o senhor diz, com bastante clareza, é que aquilo talvez não tenha sido o caminho para punir ninguém.

L. F. – É engraçado. Coisas que são tão óbvias, mas tão óbvias que acabam sendo desconsideradas. Se a gente for lembrar do caso Collor, que parecia que o mundo ia acabar de tanta denúncia, e Aristides Junqueira, naquela época, procurador geral da República, encarnou o papel do herói. Ele faz aquela denúncia toda e sai como o grande herói da história, anos depois, quando aquilo vai a julgamento, o Supremo Tribunal Federal, que tem que atuar em cima dos autos, diz: “Mas aqui não tem nada! Não tem nada que possa levar à condenação de uma pessoa por uma acusação tão grave”. E o que a gente assistiu agora foi exatamente a mesma coisa. Em um momento em que a Polícia Federal ainda estava investigando, ainda estava levantando informações para se chegar às provas – porque uma coisa é a imprensa fazer uma boa manchete, outra coisa é se ter uma prova para levar a um tribunal, no momento em que se estava fazendo isso, por causa da eterna disputa de poder entre a Polícia Federal e o Ministério Público Federal o procurador geral da República sai na frente e apresenta uma denúncia que, a meu ver, é precipitada, porque ainda não se tinham as provas. Na Polícia Federal, os delegados que estavam envolvidos com a história dizem: “O que tinha até agora não vai dar em nada”.

Denúncia não juntou provas contra Dirceu

Mas a imprensa se contenta sempre com números. É sempre aquela coisa: quantos vão ser indiciados? E isso em um passo ainda anterior ao Ministério Público. O indiciamento, a rigor, não significa absolutamente nada. Significa que a pessoa está sendo oficialmente investigada, mas isso pode até não gerar uma denúncia em juízo; ela pode ser investigada e, na investigação, se concluir que ela não deve nada. Se uma CPI, por exemplo, tem quarenta indiciamentos ou cento e cinqüenta indiciamentos, parece que a CPI trabalhou bem. E, na verdade, é um número absolutamente ridículo. É um número que não significa nada. E no caso da denúncia – e não estamos mais falando de indiciamento, estamos falando de denúncia do procurador geral da República, aquela coisa dos quarenta, e todo mundo fez aquela comparação com os quarenta ladrões (“o grupo dos quarenta”, “a gangue dos quarenta”) e ficou com isso dos quarenta, sendo que o chefe, e isso palavra do próprio procurador geral, seria o José Dirceu – quando se vai ver na denúncia, isso não se sustenta. Quais são as provas? O que se disse ali? Havia uma organização composta por quarenta pessoas que desviava dinheiro público – e o cabeça dessa organização seria o então ministro José Dirceu. Agora, qual é a prova que se tem, ainda sem julgar o que José Dirceu fez ou não fez, mas qual a prova que se tem do envolvimento de José Dirceu, eu não digo nem no desvio de dinheiro público, no mensalão? Não existe nenhuma prova! Pode-se levantar uma questão política, porque ele era ministro-chefe da Casa Civil, era um sujeito próximo do Delúbio [Soares], mas quando se leva isso ao tribunal não se tem prova nenhuma.

E eu acho que essa denúncia que o procurador apresenta, sobretudo no caso de José Dirceu, é ótima para ele – porque eu não tenho a menor dúvida de que José Dirceu vai ser absolvido. Não tem nada contra ele! Na minha visão, eu acho que isso era um trabalho para pelo menos mais um ano de investigação. Para, talvez, se conseguir chegar a alguma prova contra José Dirceu e contra os outros participantes dessa organização, que certamente existiu. Muitas instituições entram no oba-oba, a imprensa entra dando uma grande manchete e fica por isso mesmo. Daqui a alguns anos, a decepção vai ser absolutamente geral, porque não existem provas.

O delegado Zampronha, parado no meio do caminho

No livro, o senhor fala do delegado [Luís Flávio] Zampronha, da Polícia Federal, e me deu a impressão de que, se ele tivesse continuado, provavelmente, teria chegado a uma coisa mais séria. A idéia que se tem lendo o livro é de que ele foi atropelado.

L. F. – Ele e a equipe que estava trabalhando com ele aí, era de tirar leite de pedra. Provar corrupção é muito complicado. Porque é preciso provar que o dinheiro saiu do cofre público, ainda mais hoje, quando há todos esses métodos de lavagem de dinheiro, para se configurar que o dinheiro que uma pessoa recebeu é o mesmo dinheiro que saiu do cofre público é um caminho muito complicado, muito difícil. Isso não só no Brasil, no mundo todo. E essa investigação estava andando lentamente, muito lentamente, não vou julgar se o delegado estava trabalhando bem ou se estava trabalhando mal, mas o caso avançava de forma lenta. E ele foi absolutamente atropelado pelo procurador geral da República. Em um determinado momento, o procurador geral quis apresentar a denúncia como se o Ministério Público tivesse feito todo o trabalho.

Quando, na verdade, é aquela briga: o Ministério Público não se contenta de não fazer investigação, quer fazer investigação. Só que o Ministério Público não tem instrumento ainda para fazer investigação. Um procurador não tem como investigar ele próprio. Ele depende da Polícia Federal. E o procurador geral quis pegar esse caso como um exemplo e apresentar como se tivesse sido feita uma investigação do Ministério Público. Apresentou a coisa pela metade e o Zampronha ainda estava no início do trabalho dele. Tinha várias perícias que estavam sendo feitas no IML. Imagine-se o seguinte: pegar computador de dezenas de pessoas, analisar isso tudo, cruzar com movimento bancário, com coisa que chega de banco, com milhões de informações. Esse trabalho de perícia é muito complicado. Tinha várias perícias que ainda estavam em andamento e o procurador geral ofereceu a denúncia. Não tenho a menor dúvida que a Polícia Federal foi atropelada nesse caso. Nem digo que a Polícia Federal chegaria a algum lugar, mas ela ainda estava no início do trabalho.

Sem provas da existência do mensalão

No livro o senhor diz que não se provou efetivamente a prática do mensalão.

L. F. – Eu estou falando que o mensalão, aquilo que Roberto Jefferson dizia dos 30 mil mensais, acho que ele deu uma chutada no valor. Mas, enfim, que existiam pagamentos regulares para parlamentares. Aquilo não foi provado! Porque se chegou a um determinado momento da CPI que estava sobrando para todo mundo e fizeram um acordão para acabar com o negócio. Sobrou para Valdemar Costa Netto, sobrou para os que pegavam o dinheiro, mas para quem que aquilo ia? Quais eram os parlamentares que recebiam o dinheiro? Isso não foi provado. Parou em uma fase do negócio. E aí eu acho que foi um grande acordão do PSDB e do PT, porque ia sobrar para os dois. Se se abrisse como esse dinheiro foi pulverizado nas campanhas do PT e se o PT abrisse como tinha funcionado a "versão 1.0" do mensalão, caía todo mundo. E aí parou naquele nível de “o Valdemar Costa Neto recebeu tanto, o Roberto Jefferson recebeu tanto, o [Emerson] Palmieri [então tesoureiro do PTB] recebeu tanto”, e pronto. Acabou. “O Delúbio tinha tanto na mão, o Marcos Valério tanto na mão”, mas quem eram os parlamentares que recebiam? E quando se faz o cruzamento do recebimento do dinheiro pelos capas-pretas do PL, do PTB, e tudo mais, com as votações, vê-se que esses pagamentos viravam as votações.

Ninguém sabe quais deputados receberam para virar votações

Para se virar um votação na Câmara é preciso ter garantia de uns cem votos a mais. Quem são essas pessoas? Que não sejam cem, sejam cinqüenta; que não sejam cinqüenta, que sejam vinte. Quais foram os vinte parlamentares que receberam mensalão? Isso a CPI não quis aprofundar e a imprensa também não quis cobrar muito. Ela ficou satisfeita com o que tinha sido feito. Agora, eu não tenho dúvida de que o mensalão existiu. Estamos falando, mais uma vez, de quando se leva um caso para um tribunal. Com os elementos que foram levantados, não se tem como condenar absolutamente ninguém.

E é uma coisa mais estranha ainda, do ponto de vista jornalístico, que sendo o número beneficiários cem, cinqüenta ou vinte, é gente demais para um segredo ficar intacto. Se se mexer nisso aí, acaba aparecendo mais coisa. O brasileiro tem a mania de fazer as coisas de uma maneira bem esquisita, traficante cheira cocaína, prostituta tem orgasmo, corruptor gosta de bater no peito e dizer quanto deu. Se se mexer, acaba-se chegando a algum fio de meada, mas ninguém mexe. Pronto. Talvez um pouco porque a sucessão de coisas é tão avassaladora que as equipes não conseguem dar conta. Nesse caso, o jornal ou o veículo teria que tirar um sujeito e colocar no assunto, dizer assim: “Você vai ficar nisso aí que nem um cachorro com um osso”.

L. F. – Exatamente.

Até furar.

L. F. – E talvez por um período que supere um, dois anos. Uma coisa que se escuta demais dos editores, em redação.... Acontece um escândalo. No início, você tem manchete para chuchu – porque está tudo muito fácil. Pega-se um documento aqui, um grampo ali, uma transação de dinheiro acolá. Quinze dias de manchetes. Na terceira semana, já não é manchete, já está no meio do jornal, um alto de página. No mês seguinte já foi para o pé da página. Quando rola mais uma semana, chega-se com uma pauta, já se ouve: “Olha, vamos mudar de história porque o leitor se cansou disso”. Como é que o leitor se cansou disso?

E como se tem uma fartura de escândalos, a imprensa fica cobrindo a nata do negócio e não se aprofunda. Ela fica satisfeita até porque dá menos trabalho, ela faz um barulho danado com esses vilões e com esses heróis que ela vai elegendo pelo caminho, e, dali a seis meses, os mesmos corruptores de sempre vão estar envolvidos em uma outra história e ela vai fazer a coisa exatamente do mesmo jeito, sem um olhar mais crítico do processo de corrupção e do que estava envolvido naquilo. Eu acho que os grandes jornais, as grandes redes de televisão, deveriam fazer isso que você falou: tinha que ter alguém cobrindo o mensalão até hoje. Imagina quanta pista, quanta linha solta não ficou para trás, que um repórter um pouco mais esperto não poderia ir e descobrir alguma coisa.

Aécio Neves e Clésio Andrade, ignorados

Aécio Neves e Clésio Andrade. O senhor não acha extraordinário que essas pessoas passem completamente incólumes por tudo isso?

L. F. – Pois é. Quando veio à tona, a imprensa deu mal e porcamente o envolvimento do PSDB com Marcos Valério, teve-se ali a informação pública de que vários secretários de estado, pessoas próximas a Aécio Neves, tinham recebido dinheiro de Marcos Valério, e não se teve nenhuma grande preocupação de ouvir Aécio, nenhuma grande pressão, nenhuma manchete. Eu não me lembro nem de uma chamada de primeira página, ou uma chamada de televisão, sobre isso. Existia o seguinte: não vamos mexer muito com o PSDB.

Clésio era o sócio! O vice-governador de Minas Gerais, vice de Aécio Neves, era o sócio [de Marcos Valério] quando tudo aconteceu pela primeira vez. É óbvio que alguma coisa ele sabe. E ele, por exemplo, não foi chamado a depor na CPI. Azeredo, a mesma coisa. Quando veio à tona do nome de Azeredo, Azeredo escolheu um dia bem tumultuado no Congresso, foi na CPI, leu um pronunciamento, foi embora e nunca mais foi chamado. Todo mundo se deu por satisfeito com um pronunciamento escrito por ele ou por algum assessor dele, que ele foi lá e espontaneamente leu, e ninguém teve mais curiosidade de questioná-lo com relação a isso. Não se imaginava que o PSDB fosse poupado pela mídia.

Ação entre amigos, crime organizado na política

Essa cena de Azeredo, a cena de Roberto Brant, que recebe a solidariedade no plenário, e ontem (29/5) Renan Calheiros, que, como presidente da sessão, suspende a sessão para receber os cumprimentos dos seus pares, é a mesma coisa.

L. F. – Hoje se tem uma grande ação entre amigos na política e nas instituições. Fica muito mais claro, por essas operações todas da Polícia Federal, que o nome disso é crime organizado. Não tem outra palavra. Quando há grandes organizações que incluem o grande poder capitalista (e aí estamos falando do poder capitalista mesmo, é gente que não faz negócio com menos de duas casas de milhão). São empresários desse porte, são grupos empresariais, muitas vezes com participação de capital estrangeiro, que estão operando, alguns, há décadas no Brasil, corrompendo grupos políticos, hoje não se tem mais uma separação de quem está de um lado e de quem está em outro. O PT hoje, a base do PT é de partidos absolutamente envolvidos com esses casos de corrupção, e isso acontecer já é uma coisa grave. Mais grave ainda é a mídia não dissecar isso. A mídia não ir a fundo para entender esse fenômeno de como o crime organizado tomou as instituições – Legislativo, Executivo e Judiciário. Todo dia se tem uma história de um juiz que recebeu dinheiro de um empresário, que tinha uma liminar para julgar, que corrompeu também um parlamentar, que deu propina para um ministro. Está tudo ligado.

Daniel Dantas deu um baile na CPI – com alguma ajuda

Já que falamos disso: Daniel Dantas e Opportunity. Está lá no livro: passaram batidos pelas CPIs.

L. F. – A figura de Daniel Dantas eu acho a mais curiosa nessa história toda, absolutamente cercada de mistérios, mesmo porque a gente não sabe qual é o envolvimento dele com a coisa. Mas as empresas de Daniel Dantas figuram como os maiores repassadores de dinheiro privado para as empresas de Marcos Valério. Isso não foi tocado pela CPI. A CPI passou absolutamente ao largo dessa história. Daniel Dantas foi chamado, deu um baile na CPI com a ajuda de alguns parlamentares que ele tem ali sempre à disposição para dar alguma colaboração.

E a própria figura da secretária [de Marcos Valério] Fernanda Karina Somaggio, havia uma suspeita muito grande de que talvez ela tivesse sido uma pessoa plantada, ou colhida, dentro da SMP&B para prejudicar os tucanos, ou para servir como um ponto de chantagem, de manobra. Também ninguém quis ir muito a fundo nessa história. Agora, para mim, fica claro que a participação de Daniel Dantas em toda essa confusão é muito maior do que se viu até agora. Aquele caso da Operação Portugal e da viagem que Palmieri faz com Marcos Valério a Lisboa, havia ali interesses na área de telefonia muito grandes. E quando se fala em interesses na área de telefonia, se está falando em Daniel Dantas. Tinha um jogo muito pesado envolvendo Daniel Dantas e ninguém quis ir muito a fundo.

Abin, serviço secreto que ninguém controla

No início do livro o senhor fala: “A Abin estava investigando os Correios”. Como é que está a Abin [Agência Brasileira de Inteligência] hoje? Eu ainda não li seu outro livro – Ministério do Silêncio –, provavelmente o senhor está informado sobre isso. Agora, nesta mais recente crise, começaram a surgir notícias de que Tarso Genro está manipulando a Polícia Federal. Algumas pessoas disseram que há um processo de desestabilização da democracia – e, nesse contexto, sempre se pensa no velho SNI, essa coisa toda.

L. F. – A Abin é hoje uma instituição absolutamente fora de controle, porque, em termos institucionais e em termos práticos, é um órgão civil que está vinculado a um órgão de cultura militar, que é o GSI, o Gabinete de Segurança Institucional. Na prática, a Abin é comandada por um general, que é o general [Jorge Armando] Félix, o ministro-chefe do GSI. Só nisso já tem um contradição enorme. A Abin hoje não tem um controle externo efetivo, ela trabalha, como todo serviço secreto, com operações clandestinas, usando todos os métodos sujos que todo serviço secreto do mundo usa – por exemplo, grampo clandestino, história de cobertura, chantagem, gente se fazendo passar por outra pessoa para recolher segredo, “andorinhas” (que são as agentes mulheres que usam o corpo para conseguir arrancar segredos dos seus alvos). Tem uma série de métodos que são universais que a Abin também usa. Só que ela usa sem um controle externo, ela usa sem se ter clareza de quais são as suas finalidades. A Abin é um dos poucos serviços secretos do mundo que atua tanto no campo externo – ou seja, há atuação dela fazendo espionagem em outros países e tentando evitar a espionagem estrangeira no Brasil –, quanto no campo interno, ou seja, investigando cidadãos brasileiros.

O serviço secreto é um órgão que tem tanto poder que os países democráticos mais modernos dividem o seu serviço secreto em dois: aquele que faz o campo externo e aquele que faz o campo interno. Nos Estados Unidos, por exemplo, a CIA faz o campo externo – estou citando a CIA, o mais conhecido, mas tem outros. A CIA tem autorização para ir ao Iraque ou ao Afeganistão e barbarizar, uma prerrogativa dada pelo Congresso, mas dentro do território americano ela não pode checar o número da identidade de um cidadão americano. Quem faz isso é o FBI, que é o equivalente deles à Polícia Federal. Por que acontece isso? Porque não se concentra poder demais na mão de um órgão só.

Todos os escândalos têm dedo de espiões

Aqui no Brasil, não. A Abin faz o campo externo e o campo interno. Além de fazer os dois, ela não tem um controle externo, não é investigada pelo Congresso, mais uma vez o exemplo dos Estados Unidos. Um agente secreto da CIA pode, por exemplo, ter autorização para matar, mas isso vai passar pelo Congresso. E isso depois vai ser investigado pelo Congresso. E hoje se tem o órgão, a Abin, em guerra interna, dividida em grupos que se digladiam pelo poder, tem os militares, tem os concursados, tem o chamado R2 – os civis que foram recrutados na década de 70 –, tem aquele grupo meio secreto que tem como símbolo o terceiro olho na testa... Quatro ou cinco grupos se digladiando pelo poder, e a arma que eles usam é vazar informação do serviço secreto para minar os outros grupos. Se a gente pegar o governo Fernando Henrique, alguns dos grandes escândalos do Fernando Henrique surgiram dentro do serviço secreto. Grampo do BNDES, Dossiê Cayman, isso tudo passou pelo serviço secreto.

E se tem o caso Waldomiro Diniz, primeiro grande escândalo do governo Lula: teve uma participação imensa do serviço secreto. Você se lembra daquela gravação do Waldomiro Diniz no aeroporto de Brasília entregando uma mala para um outro sujeito? O Waldomiro é o tempo todo monitorado pelas câmaras de circuito interno do aeroporto de Brasília. Tudo bem você dizer que Carlinhos Cachoeira [bicheiro] colocou uma câmara dentro do escritório dele. Você pode dizer que foi Carlinhos Cachoeira, mas dizer que Carlinhos Cachoeira controlava as câmaras do circuito interno do aeroporto de Brasília, isso você não consegue fazer. Isso é uma coisa mais complicada.

E no caso dos Correios fica muito claro que a Abin estava investigando os Correios, ninguém sabe para quê; ela estava exatamente dentro daquela confusão quando estoura o escândalo. É muito difícil e cheio de arapongas e ex-arapongas em volta daquela turma do Maurício Marinho, do "Petequeiro", como diz Roberto Jefferson. Um simples "petequeiro" e a Abin estava investigando ele. É muita coincidência para a gente não achar que o serviço secreto também estava, mais uma vez, envolvido nessa história.

Quem entregou a fita dos Correios para a Veja

No livro o senhor dá uma resposta a uma pergunta que foi feita e nunca foi respondida pela própria Veja. Diz que “o araponga Jairo entregou a fita para a Veja” ou para o repórter Policarpo Júnior. Isso é uma revelação do livro ou isso saiu em algum outro lugar?

L. F. – Não sei se isso saiu em algum outro lugar, mas eu não tenho que a menor dúvida, pela própria apuração que fiz, que foi Jairo quem entregou a fita para Policarpo. Eu, se fosse o Policarpo, pegaria a fita, agradeceria e iria embora, porque aquilo era um baita de um material jornalístico. Era um funcionário público recebendo uma propina. Agora, que existiam interesses muito grandes para que essa fita parasse na imprensa e deflagrasse toda aquela confusão, isso aí, para mim, é claro.

Banco Rural, sempre ligado a lavagem de dinheiro

Há uma passagem também em que o senhor fala de Banco Rural e CPI do Narcotráfico. Qual é a conexão?

L. F. – Quando se examinam a CPI do Banestado, a CPI do Narcotráfico, a CPI do Futebol, a CPI do Mensalão e mais umas três CPIs que eu não me lembro de cabeça, em todas essas CPIs, quando se identificava uma movimentação de dinheiro que vamos chamar de irregular aparecia o nome do Banco Rural. Para mim fica muito claro o seguinte: o Banco Rural serve de suporte para essas transações irregulares. Nisso também a imprensa nunca parou muito para pensar.

Por que é que são os mesmos bancos – e aí, de novo, voltamos a falar do grão de areia e de um grande oceano –, por que é que os grandes bancos, por que é que um banco como o Banco Rural sempre está envolvido em grandes escândalos? No caso Collor, por exemplo, você tem Banco Rural, Trade Link Bank envolvidos até o pescoço com o esquema PC Farias, e esses bancos nunca sofrem uma investigação um pouco mais profunda.

Esses bancos, usando a definição corrente de lavagem de dinheiro, fazem lavagem de dinheiro.

L. F. – Várias vezes a Polícia Federal já identificou que o Banco Rural é dono do Trade Link Bank, que é uma offshore que faz muita lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais do Caribe. Segundo vários delegados da Polícia Federal, o Trade Link Bank é um braço financeiro do Banco Rural. Quando a gente vai ver o escândalo do mensalão, o escândalo Collor e outros escândalos, está lá sempre o Trade Link Bank metido no meio, lavando dinheiro dessa turma toda, muitas vezes em operações casadas com o próprio Banco Rural.

Quando se pegam atas do Trade Link Bank, se vê que as reuniões do Trade Link Bank acontecem em prédio do Banco Rural. A sede do Trade Link Bank no exterior fica ao lado da sede do Banco Rural na mesma cidade. Isso tudo é coincidência demais. E ainda ninguém quis muito ir atrás dessa história. Preferem mais uma vez ir atrás de Marcos Valério. Não que eu ache que Marcos Valério não deva ser investigado, eu acho que deve ser investigado, sim. Mas se diz “o Marcos Valério fez isso, comprou isso, fez aquilo outro”, e o Banco Rural está aí, com as suas portas abertas, fazendo negócio.

BMG, favorecido no crédito consignado

BMG também, não é?

L. F. – O BMG, a mesma coisa. Fica muito configurado no caso do BMG, e aí eu acho que tem chances de prosperar na Justiça, que o BMG, muito provavelmente, recebeu um favor, a autorização para trabalhar com os empréstimos consignados, para que, em troca disso, colaborasse naquele esquema de financiamento de campanha.

E o BMG tem um pouco mais de história, que é o momento em que a família Pentagna Guimarães sai da sombra, no governo de Newton Cardoso (1987-90) e se instala no Palácio da Liberdade. Tem-se um governador que não é nem da mineração, nem do café, para usar essa alternância clássica de Minas. Newton Cardoso era filho de uma pessoa dona de cartório em Brumado, na Bahia, onde a Magnesita, empresa da família Pentagna Guimarães, tem jazidas. A magnesita tem uma fábrica em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Newton Cardoso começou a ascender como prefeito de Contagem. E ninguém apura essas coisas! Eu fico besta!

L. F. – Isso é engraçado, porque você tem aí grande elefantes, em todas essas histórias de que estamos falando, uns animais parrudos, umas coisas grotescas que andam por aí, e a imprensa fica procurando formiguinha, às vezes micróbios, da história.

Ler a documentação com paciência

No livro O Operador o senhor trabalhou principalmente com coisas que já foram publicadas, certo?

L. F. – Com muita coisa que já tinha sido publicada e com muita coisa que não tinha sido publicada também. Por exemplo, eu peguei todos os depoimentos da CPI na íntegra e li com uma lupa. E isso é uma coisa que a imprensa... Eu já cobri várias CPIs em Brasília, você vai cobrir aqueles depoimentos de dez, onze horas, fica ali com a antena ligada para o lide e para o sub-lide, precisa de um lide e de um sub-lide. Só que quando você vai pegar aquilo depois e processar, cada depoimento desses tinha, aproximadamente, trezentas páginas. Então havia uma quantidade de detalhes que passavam batidos, e que depois, com uma pequena entrevista com alguém que tinha envolvimento com a história, se matava a charada. Eu estava trabalhando com dados, vamos dizer, abertos, a que a imprensa toda tinha tido acesso, mas garimpando, o que era uma coisa que a imprensa não tinha feito.

A mitologia do jornalismo investigativo

Uma coisa muito interessante e educativa do ponto de vista de mídia é que o senhor não se disfarçou de mendigo, não colocou nenhuma peruca, não se fez passar por um garçom de botequim, simplesmente pegou o negócio e foi ler. E o senhor afirma! O livro todo é em tom afirmativo. “O Marcos Valério fez isso. A renda dele passou de tanto para tanto”. Está tudo nos autos, está tudo em documentos oficiais, declarações de imposto de renda. Mas as pessoas não dão valor.

L. F. – É verdade.

E a maior parte da historiografia que foi feita até hoje, na história da humanidade, é baseada em documentos que foram deixados! Ninguém foi lá ouvir Júlio César. Não tem isso! Tem o que se consegue dos relatos, dos cronistas, enfim, outras fontes.

L. F. – É bem engraçado. Essa mania que se tem agora de falar em jornalismo investigativo, todo mundo enche a boca para falar do jornalismo investigativo, parece que você é quase mágico de tão investigativo, tem poderes quase sobrenaturais de investigar. E, na verdade, o que funciona ali é a velha e boa reportagem. Para fazer O Operador, eu tinha todos os depoimentos das CPIs, mais todos os depoimentos da polícia, mais um catatau de declaração de imposto de renda, declaração, por exemplo, do Duda Mendonça na Polícia Civil da Bahia. Você vai catando um monte de coisas, junta uns três, quatro metros de documento e vai ler tudo. Só que isso dá trabalho para burro. Eu passei dois meses, doze horas por dia, só lendo documentos. Mas, depois que você faz isso, você tem uma clareza tão grande de como é o problema que fica muito mais fácil entrevistar alguém e buscar um dado que vai lincar duas informações. Coisa que a imprensa não faz. Ela dá uma informação aqui, no outro dia dá uma informação ali, mas ela não faz o link. Porque isso é uma coisa que dá trabalho. Ela tem o material para fazer isso, mas ela não se dá ao trabalho de fazer.

(Transcrição de Tatiane Klein.)


enviada por Saaato!!



29/05/2007 22:46
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=435DAC002

IMPRENSA UNIVERSITÁRIA
Censura ronda jornal-laboratório

Por Fernando Conceição em 29/5/2007

Desde o início de 2006, e até agora, o curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação (Facom), da Universidade Federal da Bahia, enfrenta um debate que pode culminar na instalação da censura prévia em seu jornal-laboratório. Está prevista para meados deste mês de junho uma reunião departamental, instância decisória que reúne todos os professores da faculdade, para deliberar sobre o tema. A decisão se dá reacionariamente, isto é, como reação a um artigo assinado publicado no número 9 do jornal, em uma seção denominada "Ágora", referência justamente ao espaço de debates públicos de Atenas, cidade-Estado gênese da democracia. Ver aqui.

Por surreal, esdrúxulo e absurdo, uma escola de Comunicação que em tese deveria radicalizar na ampliação dos direitos constitucionais que asseguram a livre manifestação de opinião e pensamento, cogita constituir um "Conselho Censor" (eufemisticamente denominado Conselho Editorial). Este teria dentre as suas "responsabilidades", de acordo com os proponentes da excrescência, a de reunir-se e antecipadamente ler e aprovar o que deve ou não deve ser publicado no Jornal da Facom e demais produtos laboratoriais que venham a circular com a chancela da faculdade.

O Jornal da Facom passou a circular no primeiro semestre de 2006, sob responsabilidade deste escrevinhador – que assumiu a disciplina teórico-prática na qual a produção do jornal-laboratório repousa. Antes, e por longos oito anos, a faculdade possuía um jornal sem periodicidade regular (saía quando dava), com tiragem e circulação restritas (somente para o campus), com pauta endogâmica, isto é, abordando apenas assuntos relativos à própria UFBA. Chamava-se simplesmente Jornal Laboratório.

A cúpula de mando

Ao assumir, foi proposto um novo projeto editorial. Tablóide, em vez do formato standard anterior. Periodicidade mensal. Tiragem média de 10.000 exemplares. Pauta abrangente, com enfoque sócio-político-cultural nos acontecimentos de Salvador e sua grande região metropolitana, sem abandonar a vigilância sobre o funcionamento da universidade. Circulação e distribuição gratuitas ampliadas: além de todas as faculdades da UFBA e demais públicas e privadas, para centenas de pontos culturais, escolas, cursinhos, veículos de comunicação, sindicatos e casas legislativas.

Como o jornal é pago pelo dinheiro público, o entendimento é que deveria servir ao interesse público. Entre os objetivos, demonstrar ser possível o exercício de um jornalismo sem amarras, experimental em todos os sentidos – coisas que raramente o estudante poderá vivenciar ao ingressar no chamado "mercado". Um jornal que deveria dar voz, principalmente, a fontes "que não têm voz". Dessa maneira, radicalmente não-oficial, pluralista, de investigação jornalística. E com uma versão digitalizada.

Apresentado assim, dessa forma, o novo projeto editorial começou a gerar controvérsias dentro da Facom, isto é, na cúpula de mando incrustada em espaços gestores do mundo acadêmico. O recurso financeiro para bancar a empreitada mais que triplicou – pegando de surpresa a própria estrutura central da UFBA, à qual foram também apresentados projeto e o orçamento. Neste 2007, os oito números do ano letivo foram orçados em 32 mil reais, mas a direção central da UFBA alocou 28 mil reais para a impressão, obrigando à diminuição da tiragem média para 7.500 exemplares por edição.

As obstruções cotidianas

Ademais, foi proposta a mudança de nome do jornal. Entre as sugestões apresentadas, os alunos da disciplina (em torno de 30) decidiram denominá-lo Merda!, no sentido de boa sorte, êxito, sucesso – expressão comumente adotada em algumas esferas artísticas. A sugestão foi terminantemente vetada pela direção e pelo departamento após quatro meses de polêmica e quatro edições nas quais a logomarca do jornal foi substituída por uma arte que remetia a um rasgão sobre a capa.

No final do primeiro semestre de 2006, o conjunto departamental decidiu pelo nome Jornal da Facom. Para que o público ao qual o veículo se destina prioritariamente não concluísse que este "da Facom" significasse exclusividade ou propriedade desta faculdade, a equipe editorial solucionou o impasse ressaltando na logomarca o "J" e o "F" do nome.

Instalado o mal-estar desde aquela época, por várias vezes foi sugerida a criação de um tal "Conselho Editorial". Presente nos momentos em que isto se aventava, este escrevinhador sempre argumentou contra a medida. Primeiramente, porque tal sugestão sempre foi apresentada como reação ao novo projeto editorial, mal-dissimulando desconfianças da cúpula dirigente quanto ao método e à prática jornalística agora emulados nos estudantes. Depois, por razões práticas. Tal "conselho" pode vir a ser um entrave ao ritmo imposto à produção do novo projeto editorial, que requer agilidade na execução das pautas – 80% de reportagens, o restante colunas opinativas –, na editoração eletrônica, na revisão, no acompanhamento gráfico e na distribuição dos milhares de cópias por toda Salvador.

Tudo isso é feito por vezes varando noites na redação da faculdade, inclusive fins de semana e feriados. O planejamento dessa tarefa, aliado às discussões teóricas exigidas pela disciplina, requer o menor grau possível de burocratização para que a periodicidade e circulação do jornal sejam mantidas. Envolvidos com suas próprias rotinas acadêmicas e interesses particulares, professores de outras matérias, alguns distantes da prática e do "pique" de uma redação jornalística há tempos, seriam um peso a mais nas diversas obstruções cotidianas enfrentadas pelo jornal-laboratório.

A heresia do dia-a-dia

Tal "conselho" jamais foi sugerido como solução aos entraves, entre os quais a falta de equipamentos adequados ou suficientes na redação, a não instalação de telefones ou fax no referido espaço físico, os freqüentes atrasos na liberação do dinheiro orçado para a impressão do jornal e as más condições materiais de trabalho dos alunos envolvidos com o projeto. O fato é que, pela primeira vez em sua história, o curso de Jornalismo da UFBA tem, de fato e não "de mentirinha", um jornal-laboratório regular. Nos últimos meses se tornou referência entre os demais cursos de jornalismo em Salvador. Sua repercussão pública se reflete nas dezenas de cartas e mensagens recebidas na redação, algumas de crítica, outras de estímulo, várias de sugestões de pauta.

Entretanto, tais fatos positivos parecem incomodar professores mais habilitados para as teorias de Comunicação e Conspiração do que para o jornalismo. Eles desconfiam de todas as reportagens que contrariem suas convicções e muitos estão dispostos a calar, impondo restrições de gosto e de conduta, as opiniões alheias.

Nisso se transformou grande parte das Escolas de Comunicação: numa espécie de feudo de comunicólogos e pseudo-críticos de jornalismo, pouco afeitos a lidar com a realidade profissional, muitos deles sem nunca ter pisado o pé num jornal de verdade. Ensinar aos estudantes que "jornalismo é gastar sola de sapato", é ir para a rua, é "comer poeira" e receber "chá de espera" é ser agressivo e ser leitor de jornais – isso soa, em muitos desses cursos de jornalismo, como uma heresia.

"Doutores do conhecimento escolástico"

Foi nesse contexto e na ausência extemporânea do professor-responsável pelo jornal, que a proposta de se pautar a criação do Conselho Censor foi discutida e recebeu aprovação entusiástica, de acordo com relatos posteriores. Aquela ausência do principal interessado foi extemporânea porque presente estava nas três horas anteriores da reunião departamental de maio, período em que o assunto não apareceu. Extemporânea porque motivada por compromisso de docência em disciplina semanal num programa de Pós-Graduação da própria faculdade. Por si só, a inclusão sorrateira da discussão do tema é prova inconteste de desonestidade.

No Brasil funcionam cerca de 500 cursos de Jornalismo regularizados, 74 deles públicos e o restante, privados. A maioria tem habilitação específica em jornalismo. Quantos obedecem à antiga Resolução 03/78, do Conselho Federal de Educação, que obriga os cursos a manterem produtos laboratoriais, como jornal-laboratório, não dá para saber.

Por quase três décadas, a graduação em Jornalismo da Universidade Federal da Bahia, pela qual este escrevinhador passou em meados dos anos 1980, existiu sem cumprir as normas exigidas por aquela resolução e outras. Do final da década de 1990 para cá é que, aos trancos e barrancos, vem se buscando pôr em funcionamento laboratórios nos quais os estudantes entram em contato com exercícios de prática jornalística.

No momento em que um projeto, de tantos possíveis, deslancha e dá visibilidade aos estudantes nele envolvido, os "urubus" da censura (Barbara Gancia), travestidos agora em doutores do conhecimento escolástico, pretendem enquadrá-lo em seu moralismo arbitrário, medroso e desavergonhado.


enviada por Saaato!!



29/05/2007 22:39
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=435JDB001

CASO RCTV
O nome do jogo em Caracas

Por Muniz Sodré em 29/5/2007

Hegemonia, como bem se sabe desde Lênin e Gramsci, é a imposição dos valores que enquadram os interesses da cidadania e concorrem para a direção moral e intelectual da sociedade. Em outros termos, é a dominação por consenso. É principalmente isto o que está em jogo no cancelamento da concessão de transmissões da Rádio Caracas Televisión (RCTV) por Hugo Chávez, na Venezuela.

Não há dúvida de que se fazem presentes as manifestações de força pura e simples – carros blindados e veículos militares nas rodovias de Caracas –, mas o ato governamental é respaldado pelo preceito constitucional que outorga ao Estado a administração do espectro radioelétrico. Claro que se trata de uma decisão política, mas a sua forma é jurídico-administrativa, dentro dos limites da legalidade, altamente prezada por publicistas ou privatistas.

A hegemonia buscada por Chávez passa pelo estabelecimento de uma mídia oficialista, cujo ponto de partida deu-se em dezembro passado. Até agora, desapareceram duas emissoras privadas na esfera do circuito aberto televisivo: a CMT e a RCTV. A primeira, sem grande importância, devido à sua cobertura limitada. A segunda, a mais antiga e a detentora da maior audiência nacional, dá lugar à fundação governamental Televisora Venezolana Social (TVes), que preconiza emissões de natureza educativa.

Efeito realista

Evidentemente, ninguém acredita nessa "educação", que chega sob o marketing político da democratização das comunicações ou do "resgate da condição de cidadania que foi seqüestrada do indivíduo latino-americano". Trata-se mesmo de mais um episódio no processo de construção de hegemonia governamental por meio de um redirecionamento do sistema informativo. Outros canais privados já estão afinando as suas linhas editoriais com os ditames do governo venezuelano.

Mas também não há como levar a sério, sem mais nem menos, os argumentos contra-hegemônicos correntes, no sentido de que estaria sendo violado "o direito de livre expressão e informação de todos os venezuelanos, especialmente dos mais pobres".

Primeiramente, é preciso fixar nas mentes críticas, de uma vez por todas, que esse velho e belo argumento das liberdades civis (vide a francesa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão) adapta-se à fase histórica dita da "alienação", em que a cidadania era violentamente oprimida e em que os sujeitos tentavam reverter a situação por meio de uma ação revolucionária de massa. A imprensa livre era fundamental, e sempre será, aliás, diante de toda ameaça de retrocesso constitucional. Mas aí também ressoava a frase famosa do publicista Émile de Girardin: "Aux pauvres, le silence!". Ou seja, quem não tem dinheiro não fala.

Outra coisa, entretanto, é a situação das massas no quadro do "ultraconsumo" conspícuo e da indiferença política, acelerados pela mídia eletrônica, em cujo circuito aberto impera a televisão. Com a TV, trata-se mais de "ver" do que de "falar", isto é, de se expressar livremente. E essa visão "tele" não opera necessariamente no sentido de uma melhor compreensão do mundo, como salienta uma determinada linhagem de analistas, de Marshall McLuhan a seu discípulo canadense, Derrick de Kerckove. Para este, toda a explicação é orientada pela especificidade técnica do dispositivo televisivo, portanto, pela eletrônica em si mesma, e mais especificamente pelo efeito realista de impregnação do corpo do espectador pelos signos da televisão.

Mal das pernas

O processamento da imagem televisiva, na análise de Kerckove, constitui-se de impulsos eletromagnéticos e por isso se aproximaria da música. Trabalhando em ritmo muito rápido com as reações neurofisiológicas do espectador, a televisão processaria quase-musicalmente (no sentido da aglutinação de elementos por contigüidade harmônica, mais do que por significação) os afetos de uma comunidade de recepção, modulando-lhe magneticamente a sensibilidade. Por isto, diz ele, "a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente". Ou seja, o essencial dos estímulos televisivos estaria na varredura dos elétrons que percorrem velozmente as linhas na superfície do vídeo.

Retorna-se sempre ao aforismo mcluhaniano: o conteúdo (a mensagem) é secundário diante do feixe de elétrons que define tecnicamente o meio. A ausência de intervalo entre o estímulo eletrônico e a reação psicológica do espectador provocaria um tipo de interpretação das imagens no vídeo por uma "mímica sensomotora", portanto uma reação de natureza neuromuscular, extensiva a todo o corpo.

Concorde-se ou não com a teoria, o fato é que a predominância da eletrônica na estrutura da corporação midiática põe em cena um outro tipo de expressão, que pouco tem a ver com a bandeira liberal-clássica das liberdades civis. Isto tem sido sublinhado aqui neste Observatório da Imprensa por mim próprio e por um número razoável de comentaristas. Vale, entretanto, repetir a observação, porque o fenômeno evidencia-se com muita clareza em todo o imbroglio venezuelano: no espaço público (nacional e internacional) argüi-se a temática da liberdade de expressão, mas nas ruas ou praças públicas de Caracas, a chamada "opinião pública" está mesmo preocupada é com a grade de entretenimento da RCTV, cujo carro-chefe são as novelas, mais precisamente Mi Prima Ciela, que tem uma audiência de 3 milhões de espectadores no horário nobre local.

Não à toa, na campanha feita pela emissora contra o fim da concessão do canal, uma dona-de-casa pedia a Chávez para "deixar a minha novela em paz". Nos termos de Kerckove, a emoção sensomotora, e não a consciência liberal dos direitos civis, estaria agora dando a impulsão neuromuscular para que os corpos do protesto ganhem as ruas.

São certamente possíveis outros ângulos de análise. Não resta dúvida, porém, de que o apelo puro e simples ao velho ideário da liberdade de expressão – em que pese a movimentação nesse sentido por parte do Parlamento Europeu, da Comissão de Relações Exteriores do Senado norte-americano, da OEA e da Sociedade Interamericana de Imprensa – vai tão mal das pernas quanto a alegação de Chávez de que pretende democratizar a comunicação na Venezuela. Na realidade, para uns e para outros, pouco importa a razão última de seus discursos, pois o nome do jogo é mesmo "hegemonia".


enviada por Saaato!!



29/05/2007 22:38
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=435DAC001

CRISE NA USP
Polícia na universidade só com vestibular

Por Deonísio da Silva em 29/5/2007

Não é hora de saber se quem tem razão são os estudantes, que invadiram a reitoria da USP, ou o governo, que ameaça utilizar a polícia para desalojá-los, depois de ter obtido na Justiça a reintegração de posse.

Não se trata de ficar em cima do muro. Trata-se de dar ouvidos e olhos a juízos sensatos, de que é exemplo a entrevista que o professor Roberto Romano, da Unicamp, deu ao Estado de S.Paulo de domingo (27/5, pág. A14), em que diagnosticou: "Todo mundo grita, ninguém tem razão".

A mídia vem apresentando o conflito de forma quase sempre maniqueísta, como se fosse um jogo do qual sairão necessariamente vencidos e vencedores. Antes de qualquer resultado, já obtivemos um que é simplesmente lamentável: ameaçar estudantes com a polícia, tratando-os como se fossem desordeiros.

A questão é muito mais complexa e começa com as súbitas mudanças de muitos professores universitários quando assumem o poder, sejam reitorias ou outras governanças.

Todos estão atentos ao desfecho. Será que José Serra, ex-professor da Unicamp e ex-presidente da UNE, vai jogar a polícia em cima dos estudantes? Se o fizer, vai manchar para sempre a sua biografia.

Uma filigrana

José Aristodemo Pinotti, também ex-professor da Unicamp, de que foi reitor, vai ser o braço direito que permitirá a entrada de policiais na universidade? Numa universidade pública há apenas duas portas de entrada: o concurso público para professores e funcionários, e o vestibular para os alunos.

Está em questão a autonomia universitária, que foi parar na Constituição de 1988, por obra do então deputado Florestan Fernandes. Como diz Roberto Romano, no plano federal, a autonomia universitária ainda não foi regulamentada. E no estadual, também não.

Esclarece Romano que o decreto que deu autonomia orçamentária à USP, à Unicamp e à Unesp é obra do governo de Orestes Quércia, em 1989. Como se trata de decreto, tudo que ali está garantido pode ser revogado a qualquer momento, ao contrário das verbas para a Fapesp, cuja autonomia está garantida na Constituição do Estado de São Paulo.

A situação está confusa. É evidente que os estudantes não têm o direito de invadir a reitoria. Mas que outros recursos lhe foram dados que pudessem evitar o ato extremo? E por que misturar a reivindicação emergencial de 3% de aumento e 200 reais nos salários dos docentes com a questão que pode resolver o presente e o futuro das universidades estaduais paulistas?

Compare-se a invasão da reitoria com as invasões do MST, ainda que os organizadores do movimento prefiram usar o verbo "ocupar" – uma filigrana, pois o resultado para os donos das propriedades ocupadas ou invadidas é sempre o mesmo. O Brasil patina até no modo de formular os problemas: as questões sociais, sejam de estudantes ou de sem-terra, não podem ser tratadas como caso de polícia.

Audiência mútua

Chamar a polícia nessas horas é brincar com fogo. Freqüentemente tragédias irrompem no bojo de mútuas intolerâncias, como foi o caso do emblemático episódio de Eldorado dos Carajás, ocorrido no sul do Pará, quando eram 17 de abril de 1996.

Naquela ocasião, 21 sem-terra foram mortos pela Polícia Militar, 67 foram feridos e alguns ficaram mutilados para o resto da vida. Segundo o legista Nélson Massini, 10 sem-terra foram executados. Sete lavradores foram mortos por instrumentos cortantes, como foices e facões. O então ministro da Agricultura, José Eduardo Andrade Vieira, pediu demissão na mesma noite. E uma semana depois do massacre, o governo FHC criava o Ministério da Reforma Agrária, indicando para ministro o então presidente do Ibama, Raul Jungmann.

O monumento projetado por Oscar Niemeyer para lembrar as vítimas, inaugurado em 7/9/1996, foi destruído dias depois. "Aconteceu o mesmo quando levantamos o monumento em homenagem aos operários mortos pelo Exército na ocupação da CSN, em Volta Redonda (RJ)", disse o arquiteto na ocasião.

Diálogo demora, pois é preciso haver audiência mútua. A polícia pode fazer tudo mais ligeiro, mas chamá-la foi a pior alternativa.


enviada por Saaato!!



29/05/2007 22:38
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=435IMQ003

MÍDIA & POLÍCIA FEDERAL
A navalha cega e o dia seguinte

Por Ângelo Augusto Costa em 29/5/2007

No domingo (27/5), sobraram nove dos 48 presos na Operação Navalha, deflagrada pouco mais de uma semana antes pela Polícia Federal. Aos poucos, a pauta da imprensa se esvazia, sobretudo porque das investigações até agora divulgadas nenhum fato novo e espetacular se espera. Então, começam a entrar figuras diferentes e histórias bem mais prosaicas sobre a operação. Na manchete dominical do Globo, por exemplo, estava o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e uma declaração anódina: a AMB pedirá maior prioridade aos casos de corrupção. Nenhuma palavra sobre o papel a que a associação se prestou na semana passada, ao criticar, sem endereço certo, "abusos" da Polícia Federal. Sinal de que, depois de cortar o pescoço de um ministro, a navalha cegou. Acabou o assunto.

Agora, enfim, a imprensa mostrará se está à altura dos desafios de um país lacerado pela corrupção e desejoso de livrar-se do mal, ou se está conformada com o papel de caixa de ressonância de um setor da Polícia Federal. Por isso, duas pautas, a meu ver, impõem-se neste momento.

Primeira: o que a eficiência da Polícia Federal nas operações esconde? Qual é o segredo? Apenas o Estado de S.Paulo chegou perto, mas não muito, de mostrar que existe uma PF dentro da PF; e que essa PF-2, por assim dizer, é a responsável pelo sucesso das investigações – Navalha, Hurricane e outras. Uma PF sem as graves restrições materiais de outras unidades policiais, com dinheiro, tempo, homens e tecnologia para investigar. Essa PF conversa com o Ministério Público e com o Judiciário, negocia prazos e estratégias, organiza o trabalho para ajudar quem vem depois, monta relatórios e dossiês muito completos. Sabe qual é seu papel e tenta cumprir rigorosamente a lei. Tem o apoio total da chefia.

Duas polícias na mesma polícia

Ela também escorrega, claro. Se fosse mais ousada na apuração, a imprensa chegaria aos fracassos da nova PF, o que é uma boa história. Mas a melhor é que a PF-2 não quer nada com a outra, a PF-1, a da greve, das filas em aeroportos e delegacias, dos 40 dias para emitir um passaporte, dos inquéritos que vagam como zumbis moribundos, sem rumo, sem fim, entre um pedido de prorrogação de prazo e outro e ordens do Ministério Público jamais cumpridas por qualquer motivo fútil.

Em alguns inquéritos, só falta o delegado da PF-1 dizer que não despachou no prazo porque tinha de cortar o cabelo no Jassa. A esse respeito, lembrou o Estadão um fato curioso: a PF-2 não compartilha, nos estados, sequer os prédios da PF-1. Deveria ter acrescentado que, na sede da PF-2 em Brasília, quem é da PF-1 não entra sem estar devidamente autorizado: existe um rigoroso controle eletrônico de acesso.

A imprensa, no entanto, ignorou até agora essa história das duas polícias dentro da mesma polícia e atribui à PF inteira o que é próprio de um pequeno e seleto grupo. Daí ser necessário mostrar o outro lado: a PF que não funciona, a PF de todos os dias; a PF que o cidadão brasileiro tem de enfrentar em seu cotidiano; a PF que não investiga neca dulcineca por comodismo; a PF que finge trabalhar em seus prédios imponentes, caros e inúteis.

Os desafios pós-navalha

A outra pauta é mais complexa. A todo tempo se busca a raiz da impunidade, só que a imprensa nunca desceu fundo nessas explorações. Em geral, ouvem-se alguns especialistas de meia tigela, os mesmos de sempre, representantes de interesses concretos, mas é raro um jornalista embrenhar-se pessoalmente no cotidiano de uma vara criminal ou de um tribunal de justiça. Quase nunca, a rigor, o repórter vai a campo recolher informações.

Lembro-me de que na Gazeta Mercantil, no começo da década, dávamos muitos furos com simples visitas ao fórum, espiadas em processos importantes e conversas com os funcionários para saber quando "o doutor" (o juiz) iria despachar. Dá resultado, pois o Judiciário é o mais transparente dos poderes na atividade-fim (o que se anula com o segredo furioso na atividade-meio), tudo está nos autos e os autos são públicos – afora os excepcionais casos de sigilo. O pessoal dos cartórios judiciais tem, às vezes, uma cara ameaçadora, mas são pessoas normais, que geralmente tratam bem quem os trata bem.

Agora, pergunto: por que não fazer reportagens especiais, com o dia-a-dia de investigadores, procuradores e juízes? Qual o motivo de confiar tanto em especialistas de araque? As grandes reportagens que mostrem "a Justiça por dentro", com depoimentos de pessoas reais (juízes, promotores, policiais, acusados, testemunhas, funcionários, advogados etc.) em situações reais (audiências, reuniões, despachos etc.), podem esclarecer ao público inúmeros pontos do mau funcionamento do sistema de justiça criminal e retirar o debate da esfera dos iluminados de sempre.

Seria preciso, apenas, escalar os melhores para esse serviço. Pôr os correspondentes internacionais no jogo seria um excelente complemento, para apontar em que o Brasil se distingue, de verdade, de países mais sérios. Com uma ressalva: nada dos velhos setoristas de polícia ou de justiça. Fundamental ter pouco ou nenhum contato com o mundo forense-policial, no qual os vícios se aprendem muito rápido – tão rápido quanto o desvanescer das virtudes. A cumplicidade entre fontes e repórteres nessa área e o instinto de sobrevivência do setorista, sempre de olho na próxima exclusiva, contaminariam a investigação jornalística.

A conferir se a imprensa tem fôlego, competência e seriedade para enfrentar os desafios pós-navalha. Ou se espera a próxima operação para ser um mísero repositório de off convenientes.


enviada por Saaato!!



27/05/2007 23:05
http://www.pstu.org.br/juventude_materia.asp?id=6653&ida=0

Manifesto dos intelectuais contra a repressão ao movimento estudantil, em defesa das liberdades democráticas

Publicamos, abaixo, o manifesto assinado por intelectuais contra a censura e as punições que vêm sendo aplicadas na Universidade do Estado de São Paulo


da redação



• Ninguém é ilegal: os estudantes não estão sozinhos!

Espanta-nos o grau de perseguição e repressão ao movimento estudantil da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus Araraquara. No início de 2006 a congregação desta unidade expediu a Portaria 002/2006, onde se proíbe a realização de “ações político-partidárias”; proíbe-se, novamente, “quaisquer atos que interfiram no bom andamento das atividades acadêmicas” – e, não contentes! – proíbe-se ainda, sem a prévia autorização da diretoria, a “afixação de cartazes, distribuição de panfletos, fazer discurso por megafone, aparelho de som ou de viva-voz”, permitindo, agora sim, a entrada da polícia no campus (!). Ora, o que é isso senão a vigência e o reacionamento do Decreto-Lei N.º 477 (26/02/1969) – o chamado “AI-5 da Educação”?

Logo após o decreto desta portaria, duas estudantes foram suspensas por seis meses, tentou-se instituir “carteirinhas” e catracas na moradia estudantil e estudantes foram ameaçados de despejo (nesse processo os/as não-moradores foram proibidos/as de entrar na moradia por 15 dias, como tentativa – bastante evidente – de contenção das mobilizações estudantis). E, por fim, no segundo semestre, a congregação votou o fim da Moradia Estudantil.

Agora, nesta mesma instituição, quatro estudantes poderão ser expulsos/as da universidade: são “responsáveis” por uma manifestação – ao dia 15/03 – contra a privatização da universidade e a invasão dos bancos. A manifestação contou com mais de 100 estudantes.

Durante anos a fio, o Brasil sofreu com o arbítrio e o autoritarismo perpetrados pela ditadura civil-militar, instaurada após o golpe de Estado, em 1964. Muitos/as foram os/as que lutaram pela democratização de nossa sociedade, muitos/as pagando mesmo com a própria vida por essa luta. Quarenta e sete anos após o golpe e vinte e sete anos depois da “democratização”, pouca coisa mudou: a questão social no Brasil ainda é um caso de polícia. Assistimos hoje a um crescente processo de criminalização dos movimentos sociais e populares. Muitos militantes estão sendo presos em todo o país – como “exemplo” para os demais –, há um claro ataque a direitos históricos dos/as trabalhadores/as, com as (contra) reformas, e até mesmo a possibilidade de proibição de um instrumento de luta, histórico e legítimo, dos/as trabalhadores/as: a greve. São fatos que demonstram que o estado de exceção permanece sendo a regra geral. Liberdade? Só para banqueiros, multinacionais, latifundiários, usineiros...

Nas universidades públicas, esta tendência também está presente. Para governos, reitorias e diretorias a solução para a crise do ensino superior é o aprofundamento do processo de mercantilização. Veja-se a Lei de Inovação Tecnológica, a legalização das fundações de “apoio”, o Prouni, a diminuição do número de docentes, o corte de verbas etc., enfim, medidas estas articuladas à Reforma Universitária de Lula/FMI, em andamento. Concomitante e necessariamente, aumentam os casos de autoritarismo e repressão no interior das Universidades. Mais recentemente, nas universidades estaduais de São Paulo, assistimos aos decretos-intervenção do governador Serra. Esses decretos ferem o princípio constitucional da autonomia universitária, submetem as universidades públicas a uma pretensa Secretaria Estadual do Ensino Superior, que abriga igualmente cerca de 500 instituições privadas, e dificulta o repasse do ICMS, com o controle burocrático do orçamento e das finanças.

Nesse sentido, os estudantes tem sido o principal alvo das repressões orquestradas por governos, reitorias e diretorias. Não é à toa. O Movimento Estudantil Combativo segue resistindo aos ataques neoliberais à universidade pública. Pelo país afora, são inúmeros os casos de prisões, expulsões e perseguições políticas, câmeras de vigilância, sindicâncias, proibições e ostensiva presença de PMs nos campi. Somente na FAU/USP, foram mais de 80 sindicâncias (10% dos estudantes), tão-somente por que os estudantes organizaram uma festa. Uma festa! Três estudantes já foram expulsos da Unesp, enquanto duas foram suspensas. Dois estudantes da USP foram condenados à prisão, por terem “pichado” uma convocação de uma manifestação no asfalto da universidade.

Por tudo isso que dissemos acima, nos solidarizamos com os estudantes em movimento e, neste momento particular, com os/as estudantes da Unesp-Araraquara. Reivindicamos e exigimos, da diretoria da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp campus Araraquara (FCL-Car/Unesp), bem como do corpo de delegados/as de sua respectiva congregação, a imediata suspensão da sindicância e a revogação da Portaria 002/2006.

Nenhuma punição aos estudantes!
Basta de repressão ao Movimento Estudantil!

Em defesa das liberdades políticas de organização e manifestação dos trabalhadores e da juventude. Hoje, como antes, consente quem cala!


ALGUNS NOMES QUE JÁ ADERIRAM AO MANIFESTO:
Luiz Fernando da Silva, professor de Sociologia de Unesp-Bauru; Alvaro Bianchi, professor de Ciência Política da Unicamp; Luziano Pereira Mendes de Lima, professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Alagoas; João Quartim de Moraes, professor de Filosofia da Unicamp; Caio Navarro de Toledo, professor de Ciência Política da Unicamp; Ruy Braga, professor de Sociologia da USP; Hector Benoit, professor de Filosofia da Unicamp; Angela Lazagna, doutoranda em Ciência Polícia da Unicamp; Danilo Martuscelli, doutoirando em Ciência Polícia da Unicamp; Roberto Della Santa Barros, pesquisador-junior e doutorando em Comunicação da Clacso-Unesp/Universitat Autònoma de Barcelona; Fernando Ferrone, membro da Revista Outubro e mestre em História pela Université de Bourgogne; Giovanna Oliveira Baccarin, jornalista; Tatianny de Souza de Araújo, secretária da Conlutas-RJ; Diego Cruz, jornalista do Opinião Socialista; Yara Fernandes Souza, jornalista do Sindsef-SP; Jeferson Choma, historiador; Wilson H. Silva, professor de Imagem e Som da Uniban; Cecília Toledo, editora da Revista Marxismo Vivo; André Valuche, assessor da Conlutas-SP; Angelica Valente, cineasta documentarista da EICTV-Cuba; Bernardo Cerdeira, jornalista; Eric Gustavo Cardin, professor de Sociologia da Uniamerica; Henrique Canary, professor e tradutor da editora Sundermann; Iraci Borges, bibliotecária da editora Sundermann, sanitarista e mestre em Comunicação; João Ricardo Soares, especialista em Relações Internacionais do Ilaese-SP; José Welmowicki, editor da Revista Marxismo Vivo; Marcelo Dalla Vecchia, professor de Psicologia da UFMS; Valério Arcary, professor de História do Cefet-SP

[ 11/5/2007 17:50:00 ]
enviada por Saaato!!



27/05/2007 23:02
Ainda lembro de um dia qualquer, provavelmente ha um mes, mais ou menos, quando um alto cargo da USP falou algo transmitido, na ocasiao, pelo Jornal Hoje, o jornal nacional vespertino da Rede Globo de televisao.
O sujeito disse que os estudantes poderiam ter seus motivos para a ocupacao da reitoria da USP, mas que esse nao seria um canal de resolucao de suas questoes. Para ele, as coisas teriam que ser negociadas, numa mesa, "civilizadamente". Esse cara foi Edgar de Decca.
Impressionante como os discursos sao facilmente deturpados, distorcidos e invertidos para as causas conjunturais. Mesmo que originalmente seriam voltados para analises gerais e amplas. Fica abaixo algo sobre as ocupacoes.

Fora isso, ontem, no Heavy Duty, foi um bom pessoal da UFF. Eu, Pri, Eduardo, Ricardo, Lucrecia, Denise, Marcelo Dias, Marcio, e mais 2 caras lah. O Eduardo falou algo que surpreendeu a todos: a CSN entrara em greve, depois de 18 anos da sua ultima greve. Impressionante. Ele, que fez monografia sobre aquela greve violentamente reprimida, estah louco para voltar lah.
Junto com toda a ameaca de greves no funcionariado publico brasileiro, a situacao mostra que ha condicoes concretas de mudancas sociais. Estas sao sempre possiveis, mas eh sempre boa a chama da esperanca.

Nem tao surpreendente, foi um aviso dado por mim, sobre o caso Renan Calheiros. O senador pode se foder. Justo, mas podemos desconfiar de que o alvo seja o Governo Federal, afinal, o maior aliado do PT, dentro do PMDB, estah sendo atacado...




http://www.pstu.org.br/juventude_materia.asp?id=6695&ida=0

Ocupações universitárias na História



Henrique Carneiro, Ruy Braga e Alvaro Bianchi*



• A ocupação da reitoria da USP, da Unesp-Marília e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp pelos estudantes dessas universidades tem sido objeto de muita discussão. Em 1968, durante a ditadura militar, outra ocupação de prédios da USP pelos estudantes, o da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na rua Maria Antonia, dividiu as opiniões e as atitudes, definindo quase geograficamente o mapa do espectro político paulista: quem estava no lado da rua do Mackenzie e quem estava no lado da USP. Muitos dos que hoje são professores estiveram naquele momento ocupando a sua faculdade. Mas não são poucos os que se emocionam ao falar da Maria Antonia e hoje são contrários às novas ocupações.

A ocupação nas reitorias e universidades é um ato simbólico por meio do qual tem lugar a reapropriação pelo público daqueles espaços que teoricamente são ou deveriam ser públicos. Como tal, a ocupação é uma ressignificação do território na qual a sede da autoridade universitária, da tradição acadêmica e da burocracia universitária passa a ser a sede de sua contestação, transgressão e questionamento. O espaço da imobilidade passa assim a ser o espaço do movimento.

A ocupação é, também, um ato por meio do qual os estudantes interpelam as autoridades universitárias e governamentais colocando em evidência uma agenda política que de outro modo permaneceria na penumbra. Exercendo seu direito à rebelião, os estudantes estão redefinindo os termos da discussão e argumentando, com seus atos, em favor da autonomia universitária e da defesa de uma universidade pública.

A ação dos estudantes é uma resposta vigorosa à crise das universidades paulistas. Essa crise não começou com os decretos do governador José Serra. A redução do quadro docente e seu envelhecimento, as restrições orçamentárias, o estrangulamento do financiamento estatal para a pesquisa e a pós-graduação são sintomas dessa crise. Mas se o governador não criou essa crise ele sem dúvida a agravou com seus decretos, com a criação da Secretaria de Ensino Superior e com a nomeação do professor José Pinotti, vice-reitor das Faculdades Metropolitanas Unidas como secretário.

O atual movimento estudantil expressa, também, a insatisfação contra um governo federal que deu início a seu mandato anunciando a vitória da esperança sobre o medo para, logo a seguir, frustrar essas mesmas esperanças. Condenados a ver a universidade na qual depositaram o seu futuro sucateada e o próprio futuro confiscado pelos governos estaduais e federal os estudantes resolveram agir. O alcance dessa ação ainda depende da capacidade de articular um programa de renovação da universidade com um programa de transformação social.

Embora vigorosa, a ação dos estudantes não pode ser considerada desmedida ou inusitada. Não há novidade em uma ocupação universitária, assim como não há novidade na oposição que ela desperta entre os setores mais conservadores da comunidade acadêmica e da sociedade.

A história da universidade é também a história do movimento estudantil e de suas ocupações. Em nosso continente, a agenda da autonomia universitária, da gestão pela comunidade universitária e da docência livre foi apresentada pela primeira vez pelos estudantes na Universidade de Córdoba, em 1818. Rapidamente os estudantes despertaram a simpatia de um nascente movimento sindical que e eles se uniu nas ruas de Córdoba.

Também houve, nessa ocasião, a ocupação da universidade, e também não faltaram os que condenaram os estudantes, como fez o bispo do Córdoba, que anunciou horrorizado a chegada da “hora das democracias e do proletariado, criada e saudada com ardor pelos apóstolos da demagogia, hora de subversão e anarquia geral”.

O movimento de Córdoba definiu para a América Latina um paradigma de universidade pública, laica e democrática, co-gerida por estudantes e professores, independente da Igreja e do Estado e aberta aos problemas de sua época. Esse paradigma influenciou imediatamente movimentos de reforma universitária no Peru, Chile, Cuba, Colômbia, Guatemala e Equador e, durante a década de 1930, no Brasil, Paraguai, Bolívia, Venezuela e México. Olhando a partir do presente são poucos os que duvidam que a razão estava com os estudantes de Córdoba que ocuparam a universidade e não com o bispo da cidade.

E hoje, perante as ocupações na USP, Unesp e Unicamp quem estaria disposto a fazer o papel do bispo? Alguns pedem a intervenção policial. Caso isso ocorra, as universidades passariam a ser ocupadas não pelos seus alunos e funcionários, mas por uma força militar repressiva inaugurando uma situação inédita e que se tornaria a maior violação do princípio da autonomia universitária.

A universidade, sede do pensamento crítico e do debate livre das idéias estaria cedendo a voz da razão para a força das armas. A situação da USP é a mais crítica. Ainda é tempo da reitora Suely Vilela realizar o que havia se comprometido: conversar com os estudantes numa audiência pública, ouvir as suas reivindicações e explicar-lhes a sua posição diante dos decretos do governador Serra. Ainda é tempo de ser convocada uma reunião aberta no anfiteatro na qual a crise entre a comunidade acadêmica possa ser debatida, sem a presença da polícia.

Neste momento, a simples retomada da negociação e a reabertura do diálogo já seriam uma demonstração de respeito à vocação crítica e democrática da universidade autônoma. O outro caminho é o da repressão policial que abrirá uma ferida que será difícil de curar no seio da USP e de todas as universidades públicas paulistas e brasileiras.


* Henrique Carneiro é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).
Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).
Alvaro Bianchi é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).



Artigo publicado originalmente em no blog da ocupação da USP (http://ocupacaousp.blog.terra.com.br)


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[ 21/5/2007 12:09:00 ]
enviada por Saaato!!



27/05/2007 22:23
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=3&id={E6B38611-363B-4AE4-A80B-ABB3645C3A41}

Só um jornal foi para cima do senador

Postado por Luiz Weis em 26/5/2007 às 11:23:09 AM



Cesta de três pontos do Globo na abordagem da crise desencadeada pela denúncia da Veja de que, de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, Claudio Gontijo, lobista da empreiteira Mendes Júnior, pagou o aluguel de um apartamento para uma jornalista de Brasília com quem o presidente do Senado, Renan Calheiros, teve uma filha e uma pensão para a menina, somando R$ 16,5 mil mensais.

Além disso, ainda segundo a revista, em matéria assinada pelo repórter Policarpo Junior, o lobista pagava também um flat no Blue Tree da capital para uso pessoal do senador alagoano.

Cesta de três pontos porque, enquanto a concorrência ou trombeteava o óbvio ululante - "Acusação complica situação de Renan" (Folha) - ou dava como certo o que ontem era apenas hipótese - "Ligação com lobista leva Renan ao Conselho de Ética" (Estado, indo além do que banca a sua própria matéria) -, o jornal carioca foi direto para cima do senador, com "Renan dá explicações confusas sobre lobista" (na primeira página) e "A contradição do senador" (na principal matéria, assinada por Adriana Vasconcelos, Evandro Éboli e Ilimar Franco).

Fez mais ainda - do que se falará logo adiante para não perder o fio da meada.

O Globo simplesmente pegou no nervo exposto da nota do senador, a passagem em que ele assegura:

"Jamais tive qualquer despesa ou gasto pessoal ou de meus familiares custeados por terceiros. Meus compromissos sempre foram honrados com meus próprios recursos."

Pois bem. Em vez de se limitar, burocraticamente, a reproduzir o texto e "repercuti-lo" entre os políticos, o Globo resolveu somar dois com dois. De um lado, o que Renan disse à Veja sobre os seus rendimentos. De outro, o que já havia dito.

Para sair do enrosco de que a sua paga de senador - R$ 12,7 mil - não lhe permitiria arcar, ele mesmo, com o sustento da filha e o aluguel da moradia da mãe, Renan alegou que, além do subsídio, ele possuía "rendimentos agropecuários".

Só que, checando a mais recente declaração de bens informada por Renan à Justiça Eleitoral, o reportariado do Globo não viu nenhuma fazenda, nenhuma cabeça de gado. O homem disse ter uma casa, dois apartamentos, dois carros - tudo muito urbano, pois.

De posse disso, o jornal foi a Renan e deu com a cara na porta, ou melhor, na declaração da assessora de imprensa do senador de que se tratava de "assunto privado" - como se os haveres e posses de servidor público ou mandatário só a ele dissessem respeito.

Tudo somado, tem-se por enquanto o seguinte: o lobista Gontijo confirmou à Veja os pagamentos. Com o dinheiro de quem? "Meu é que não era." A empreiteira também jura de pés juntos que nunca pagou nada a Renan por baixo dos panos - só contribuições legais de campanha.

Perguntar não ofende: alguém por aí sentiu cheiro de caixa 2? Mas passemos.

Bate com a afirmação da matéria da Veja sobre a proximidade - ou será promiscuidade? - entre o lobista e o senador a informação divulgada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha, de que o primeiro estava ontem ao lado do segundo, como sua testemunha, na audiência de conciliação numa Vara da Famíliza do DF, em que mãe e pai se puseram de acordo sobre a pensão dele para a filha - R$ 7 mil.

O plus do Globo de que falei acima está na coluna Panorama Político, assinada por Tereza Cruvinel. Ou muito me engano, ou só ali nos jornais de hoje se encontra uma referência ao fato de que a matéria da Veja padece de um crônico problema de reportagens do gênero na mídia nacional: não tem corroboração.

É a velha história: um repórter pode ser um santo homem que nunca desobedeceu ao nono mandamento bílbico - "Não darás falso testemunho contra teu próximo" -, pode estar absolutamente convencido no íntimo de que é pura verdade o que apurou e vai escrever, mas, como diziam ontem os políticos da nota de Renan, "não basta, é insuficiente".

Lembram-se do pacto dos repórteres Woodward e Bernstein, na cobertura do Watergate? Nunca afirmar algo que não possa ser atribuído a alguém, sem a confirmação de pelo menos duas outras fontes, que pudessem ser citadas, embora não identificadas.

Isso, a Veja não fez. Por isso, ela tem "meia razão", nas palavras de Tereza, quando justifica, em nome do interesse público a publicação de uma história que tem a ver com o que a nota de Renan considera "uma turbulência circunscrita à minha mais íntima privacidade".

Meia razão, explica Tereza, porque a Veja "afirmou, mas não provou, que a empreiteira pagou pensão a uma filha do senador, bancou o aluguel da mãe da menina e ainda cedeu um flat para Renan usar em reuniões discretas".

É esse divulgar-sem-corroborar que dá razão inteira ao presidente Lula no seu comentário a respeito. Por menos que lhe interessem novas turbulências políticas, além das muitas já provocadas pela Operação Navalha - que ainda não parou de cortar -, é objetivamente incontestável o que declarou aos jornalistas que o abordaram num evento no Itamaraty:

"Pobre de quem fizer julgamento de uma pessoa por uma matéria."

***


enviada por Saaato!!



27/05/2007 22:21
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=434JDB008

PONTO DE VISTA
É preciso salvar a imprensa de qualidade

Por Jürgen Habermas em 27/5/2007

Publicado originalmente no Süddeutsche Zeitung (16/5/2007) e reproduzido pelo Le Monde (21/5/2007, trad. de Christian Bouchindhomme); tradução de Jô Amado
Informada há três semanas, a editoria de Economia do semanário Die Zeit quis alarmar seus leitores com a manchete: "O quarto poder está à venda?". A notícia referia-se às incertezas sobre o destino econômico do Süddeutsche Zeitung, desde que se tornou público o desejo da maioria dos acionistas de se afastar do jornal.

Se a venda ocorrer em hasta pública, é possível que um dos dois melhores jornais "nacionais" da República Federal da Alemanha passe para as mãos de grandes investidores, de grandes corporações cotadas na Bolsa de Valores ou de um grande grupo de mídia. Alguém dirá: business as usual. Na realidade, o que há de alarmante no fato de que os donos façam uso de seus direitos e cedam, por uma ou outra razão, sua parte na empresa?

A crise que se abateu sobre a imprensa diária no início de 2002, após o colapso do mercado publicitário, foi posteriormente superada pelo Süddeutsche Zeitung, assim como pela maioria dos órgãos de imprensa. As famílias que agora o desejam vender – e que dispõem de mais de 62,5% das ações – escolheram, portanto, um momento propício.

Apesar da concorrência eletrônica e da mudança de hábitos de leitura, os lucros cresceram. Independente da atual retomada da economia, esses lucros resultam, essencialmente, de medidas de racionalização que têm repercussões no plano da prestação e da latitude de ação das redações. (...)

Na semana passada, Die Zeit retomava a questão, uma vez mais, falando da "luta do capital financeiro de Wall Street contra a imprensa norte-americana". O que se esconde por trás de tais manchetes? Obviamente, a crença de que os mercados aos quais as empresas nacionais de imprensa devem se impor não estejam adaptados à dupla função que, até agora, a imprensa de boa qualidade soube preencher: satisfazer a demanda por informação e cultura, mantendo-se razoavelmente rentável.

Mas, então, os sólidos lucros não seriam a confirmação de que as empresas de comunicação que se submeteram às "saudáveis medidas de apertar os cintos" hoje satisfazem melhor os consumidores de seus produtos? Teria a imprensa o direito, sob o pretexto da "qualidade", de amputar a liberdade de escolha de seus leitores? Teria ela o direito de impor relatórios espartanos ao invés de oferecer a informação-espetáculo?

"Mídia diretora"

Essa discussão em torno do caráter específico de mercadorias como cultura e informação remete ao slogan que, por ocasião do surgimento da televisão nos Estados Unidos, correu o país de um extremo ao outro, sugerindo que aquele novo meio de comunicação não passava de uma "torradeira com imagens". Com isso, queriam certamente dizer que a produção e o consumo dos programas de televisão não poderiam senão ser – sem sombra de dúvida – uma jogada de mercado.

Desde então, as empresas de comunicação passaram a produzir programas para os espectadores e a vender os índices de audiência de seu público às firmas publicitárias, que são exigentes. Esse princípio de organização, tão generalizado quanto foi sua introdução, teve o efeito, sobre a esfera político-cultural, de um temporal com geada sobre um campo de milho.

Nosso sistema audiovisual "dual" tenta limitar os estragos. De qualquer maneira, as leis regionais sobre a mídia, assim como as decisões da Corte Constitucional sobre as questões e os princípios de programação das empresas públicas, refletem uma concepção segundo a qual a mídia eletrônica de massa não deve apenas satisfazer as necessidades de diversão e entretenimento dos consumidores – necessidades facilmente comercializáveis. Os ouvintes e espectadores não são apenas consumidores, e, portanto, usuários do mercado; são também cidadãos que usufruem de um direito de participação cultural, de acesso à informação política e de participação na formação da opinião.

É com base nessa exigência jurídica que os programas que garantem à população esse "saldo" não podem se tornar dependentes de sua eficiência publicitária ou do apoio de patrocinadores. Na realidade, os próprios impostos – que autorizam o financiamento de tais programas e que decorrem de uma decisão política – devem mesmo ser descontáveis, de acordo com o orçamento específico das regiões, para os mais altos e mais baixos da conjuntura econômica. (...)

O direito público criou, portanto, um belo dispositivo que permite enquadrar a mídia eletrônica. Não poderia esse dispositivo, eventualmente, constituir um exemplo para a organização da imprensa escrita "séria"?

Trabalhos produzidos pelas ciências da comunicação destacam um fato interessante em relação a isso. De acordo com esses estudos, a imprensa de boa qualidade desempenharia – pelo menos no âmbito da comunicação política – o papel de "mídia diretora". Na realidade, parece que até o rádio, a televisão e os restantes veículos seriam amplamente tributários, em sua cobertura política e nos comentários, da abordagem dos temas e das contribuições formulados por esse "jornalismo reflexivo".

Elemento de junção

Admitamos a hipótese de que algumas dessas redações passem a ser tuteladas por investidores financeiros que apenas procuram lucros rápidos, planejados a prazos inapropriados. Se as mudanças introduzidas, em termos de organização e de economia – questão difícil e crucial –, colocarem em risco os critérios de jornalismo adotados, então é atingido o coração da esfera pública política.

Sem o fluxo de informações – cuja pesquisa pode ser dispendiosa – e sem uma retomada dessa informação – por meio de argumentos que pressupõem uma perícia que também não é exatamente gratuita –, a comunicação pública só pode perder sua vitalidade discursiva. A esfera pública correria, então, o risco de não ter condições de resistir às tendências populistas ou de não preencher sua função – o que lhe cabe cumprir no âmbito de um Estado democrático.

Vivemos em sociedades pluralistas. Ainda que enfrentando uma oposição eventualmente profunda de visões do mundo, o processo de decisão democrática não pode empregar uma força de legitimação capaz de convencer a totalidade dos cidadãos de que, ao combinar duas exigências, deve associar a capacidade de integração – e, portanto, a participação de todos os cidadãos com iguais direitos – com uma batalha de opinião travada de forma mais ou menos discursiva. Sem controvérsias que levem à deliberação, torna-se impossível, na verdade, fundamentar a hipótese segundo a qual o processo democrático pode levar, no longo prazo, a resultados mais ou menos razoáveis.

A formação democrática da opinião tem uma dimensão epistemológica, pois trata-se de criticar, por meio dela, afirmações e avaliações falsas. É isso que está em jogo quando a esfera pública obtém da opinião a vitalidade da discussão. É possível imaginá-la intuitivamente, de uma maneira mais ou menos clara, visualizando-se, por um lado, a distância que separa aquilo que produz, em termos de discussão pública, a concorrência de "opiniões públicas" divergentes, e, por outro, a publicação, de forma demoscópica [demoskopisch], de um leque de opiniões.

Com todas as suas dissonâncias, as opiniões públicas que se criam através da discussão e da polêmica são filtradas por informações e motivos que lhes dão pertinência sobre o assunto que as separa; enquanto a demoscopia de opiniões, que de certa maneira ainda são apenas latentes, limita-se a entregá-las em estado bruto e inerte.

Os fluxos de comunicação selvagens de uma opinião pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem, obviamente, discussões ou deliberações regulamentadas, tal como ocorre em tribunais ou em comissões parlamentares. Aliás, é necessário que assim seja: a esfera pública não passa de um elemento de junção. Na realidade, ela é o elemento que permite vincular, de um lado, as discussões e negociações institucionalizadas que se travam nas arenas do Estado; e, de outro, as conversas episódicas e informais que se dão entre os potenciais eleitores.

Idéia contra-intuitiva

A esfera pública contribui para a legitimação democrática da atividade do Estado ao escolher aquilo que deve ser objeto de uma decisão política, dando-lhe a forma problemática e reunindo as posições mais ou menos informadas e fundamentadas para que possam formar opiniões públicas concorrentes. É por isso que a comunicação pública desenvolve uma força que, simultaneamente, estimula e oferece orientação à formação da opinião e da vontade dos cidadãos – forçando, com isso, o sistema político à transparência e à adaptação.

Sem o impulso de uma imprensa opinativa, que informe de maneira confiável e faça seus comentários com a devida prudência, a esfera pública não poderá mais fornecer essa energia. Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de garantir à população o fornecimento. Por que não deveria ter a mesma obrigação quando se trata de outro tipo de "energia" que, em caso de falta, produziria perturbações que ameaçariam o próprio Estado democrático?

Que o Estado se esforce em proteger os bens públicos – e, em especial, aquele que constitui a imprensa de boa qualidade – não deve ser considerado um "erro de sistema". O fundamental é saber como ele o poderá fazer da melhor maneira, e isto não é uma questão pragmática. Os subsídios pontuais são apenas um dos recursos. Existem outros, tais como o modelo de uma fundação com participação pública ou as deduções de impostos para as famílias proprietárias.

Nenhuma das tentativas dessas experiências deixou de ter conseqüências. De uma ou de outra maneira, o que importa, prioritariamente, é acostumar-se à idéia do subsídio de jornais e revistas. Do ponto de vista histórico, a idéia de deixar nas mãos do mercado a direção dos produtos da imprensa tem algo de contra-intuitivo. Antigamente, o mercado abriu um espaço no qual pensamentos subversivos podiam se emancipar da opressão do Estado. Mas o mercado não pode preencher tal função senão pelo tempo que leva para a legalidade econômica buscar asfixiar seu conteúdo político e cultural.

Como sempre, Theodor Adorno acertava quando criticava a indústria cultural. Portanto, o desafio está na ordem do dia, pois nenhuma democracia pode permitir uma incapacidade do mercado nesse setor.

enviada por Saaato!!



26/05/2007 15:06
http://www.akatu.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1465&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=1%2C3%2C116%2C4%2C5%2C7%2C8%2C78%2C9%2C10%2C11%2C15%2C19%2C16%2C17%2C52%2C23%2C27%2C91%2C29%2C28%2C56%2C57%2C58%2C59%2C61%2C62%2C63%2C74%2C75%2C79%2C21%2C88%2C82%2C83%2C84%2C119%2C22%2C85%2C86%2C96%2C104%2C106%2C110%2C111%2C112%2C113%2C114%2C118%2C117%2C14%2C120&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=88&text=sabao&tpl=view%5Ftipo4%2Ehtm

Sabão é alternativa de reaproveitamento do óleo de cozinha; veja a receita
28 de Fevereiro de 2007 Fonte: Instituto Akatu



Receita de sabão a partir do óleo de cozinha - por Maria Bassi Massulini


Material utilizado
- 5 litros de óleo comestível usado
- 2 litros de água
- 200 ml de amaciante
- 1 Kg de soda cáustica em escama(NaOH)

Passo-a-passo
1- Coloque a soda em escamas no fundo do balde cuidadosamente.
2- Coloque, com cuidado, a água fervendo. Mexa até diluir todas as escamas da soda.
3- Adicione o óleo cuidadosamente. Mexa.
4- Adicione o amaciante. Mexa novamente.
5- Mexa até formar uma mistura homogênea.
6- Jogue a mistura em uma fôrma e espere secar bastante.
7- Corte as barras e pronto!

Dica
Quanto mais o sabão curtir, melhor ele fica.

Todo cuidado é pouco. Se a soda entrar em contato com a pele, pode provocar queimaduras.

O descarte do óleo é apenas uma pequena parte do grande problema relacionado à geração de lixo no mundo. Tratar lixo é caro e, quando não tratado, há um forte impacto ambiental. Por isso, o Instituto Akatu procura mostrar ao consumidor a oportunidade que ele tem, ao mudar seus hábitos, de contribuir para a sustentabilidade do planeta - gerando o mínimo de lixo possível e reaproveitando ao máximo os produtos antes de descartá-los.

No caso do óleo de cozinha usado em frituras, a possibilidade mais concreta para evitar seu despejo na natureza é reaproveitá-lo fazendo sabão (veja receita no quadro ao lado). A dona-de-casa Maria Bassi Massulini, moradora de Santos-SP, há tempos adota essa atitude consciente. “Sempre tive muito dó de pensar que o óleo descartado pudesse ir para o canal e poluir a praia”, conta. Ela aprendeu a fazer sabão a partir da gordura há 30 anos com sua sogra.

Na época em que era vizinha de uma barraquinha de pastéis, Maria conta que reaproveitava todo o óleo que podia. “Rendia tanto sabão que acabava servindo para todo mundo”, lembra. Ela até chegou a dar uma dica muito válida para quem se interessar em fazer o sabão: “quanto mais tempo ele curtir, melhor, limpa mais”. Outra recomendação importante é ter muito cuidado ao misturar a soda com a água. "O melhor é usar luvas, pois a soda pode queimar se entrar em contato com a pele", recomenda ela. O ideal também é usar utensílios de madeira ou plástico para preparar a mistura e deixar o sabão curtir por no mínimo três meses, para que não ofereça riscos à pele.

Além do sabão, o consumidor consciente tem outra alternativa: doar - ou mesmo vender - o óleo usado para instituições e empresas que se encarregam de reutilizar o produto. Um exemplo disso é o trabalho da Ação Triângulo, OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) com sede na cidade paulista de Santo André.

Todos os meses, seus 60 agentes socioambientais visitam 60 mil residências em diversos bairros de cidades do ABC paulista (que engloba as cidade de Santo André, São Bernardo e São Caetano) para recolher o óleo de cozinha. Com as cinco toneladas de material recolhidas mensalmente, são produzidos, na própria usina da organização, sabões em pedra e sabonetes que, posteriormente, serão vendidos para custear as ações ambientais, sociais e de consumo consciente desenvolvidas pela entidade.


A equipe de campo da Ação Triângulo
O projeto, denominado "Casa a Casa", começou há quase quatro anos e hoje conta com o patrocínio da Petrobrás. Segundo o coordenador de comunicação da Ação Triângulo, Adriano Ferreira Calhan, o projeto faz com que as pessoas sejam sensibilizadas em rede sobre os impactos do seu consumo. “As pessoas acabam parando para pensar a respeito do ciclo de vida daquilo que elas consomem”, diz ele.

Além do óleo, os agentes recolhem também pilhas e baterias. Para quem mora na capital paulista ou na sua região metropolitana, é possível também agendar a retirada do material, desde que a quantidade seja superior a três litros.

Em Ribeirão Preto e região, no interior paulista, o óleo de cozinha também pode ser doado. O Projeto “Biodiesel em casa e nas escolas”, desenvolvido pelo Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas do Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto, visa a produzir biodiesel por meio do óleo usado nas frituras e tem parceria com as lojas do Carrefour (parceiro mantenedor do Instituto Akatu) da cidade de Ribeirão Preto e com algumas escolas da rede pública de ensino. Além de Ribeirão, as cidades da região que têm escolas cadastradas no projeto são Sertãozinho, São Carlos, Araraquara, Batatais e Pradópolis. No caso das lojas de supermercado, quem levar quatro litros de óleo usado, ganha um litro de óleo novo. Já nas escolas, os alunos que levam o material concorrem a uma bicicleta.

No Rio de Janeiro há outro projeto de pesquisa sobre o uso do óleo como combustível. O Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Estudos de Engenharia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também conhecido como COPPE, desde de 2002 realiza um trabalho, sob coordenação do professor Alexandre D’Avignon, que visa a tornar viável o uso de óleo de cozinha para a produção do biodiesel. A tecnologia já existe, o que falta apenas é uma regulamentação governamental.

Segundo a professora do Departamento de Tecnologia de Alimentos e do Laboratório de Óleos e Gorduras da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) na Europa há equipamentos para adaptar carros de forma que funcionem diretamente com óleo de cozinha. Ela também faz um alerta: “Na Europa é comum o óleo de cozinha ser usado como aditivo nas rações de animais. Isso é altamente tóxico e o maior prejudicado é o ser humano que irá consumir a carne desses animais”.

Outro ponto de coleta óleo usado é a Associação Nossa Escola, em São Paulo, especializada no ensino para portadores de deficiência mental. A entidade aceita doação de óleo de fritura usado, que é repassado para uma empresa parceira. A verba arrecadada é revertida para ampliar e melhorar o trabalho da instituição. A Associação Nossa Escola fica na R. Marquês de Praia Grande,115, na Vila Prudente, em São Paulo (SP).

Conheça a Ação Triângulo
Conheça a Associação Nossa Escola.
Conheça o projeto “Biodiesel em casa e nas escolas” http://www.biodieselbrasil.com.br/
Óleo de cozinha usado pode contaminar água, solo e atmosfera

enviada por Saaato!!



24/05/2007 21:25
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=4&id={7D69D119-2142-42A8-8EF6-43AAF2F4C55E}

Negro incomoda ou não quando sai do lugar?
Postado por Mauro Malin em 22/5/2007 às 6:09:52 PM



Um estudo sobre “Classe, Raça e Mobilidade Social no Brasil”, feito pelo professor Carlos Antonio Costa Ribeiro, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), apareceu na imprensa de modos diametralmente opostos.

Ele foi noticiado primeiro por Elio Gaspari, em 29 de abril, na Folha de S. Paulo e no Globo, sob o título “Negro incomoda quando sai do seu lugar. Um branco com mais de 12 anos de escolaridade tem três vezes mais chances de chegar ao andar de cima”.

Na Veja desta semana (data de 23 de maio), André Petry recorreu ao mesmo estudo para chegar à conclusão de que “mesmo na universidade, mesmo nos bons empregos, mesmos nos ambientes onde a discriminação racial cresce, a origem de classe sempre pesa mais que a cor da pele. Sempre”.

André Petry leu mal o estudo. E para afirmar isso é preciso mergulhar nele.

Quem não puder gastar algum tempo nisso deve parar por aqui. Não adianta ler afobadamente. Tudo bem, logo adiante há uma entrevista de Carlos Antonio Costa Ribeiro, feita hoje, com uma síntese que demonstra a afirmação do início do parágrafo. Mas o propósito aqui não é agitativo. É, poderia ser dito, antiagitativo.

Desde logo, remeto o leitor para o próprio conteúdo do trabalho. Aqui está o link. [ http://www.iuperj.br/site/carloscr/textos/raca.pdf ]

Quanto mais escolaridade, mais pesa a raça

Mas, calma. Antes de abandonar a leitura do presente texto, que contém duas entrevistas dadas por Costa Ribeiro ao Observatório da Imprensa, em 4 de maio (antes da publicação da Veja) e hoje, peço ao leitor que confira algumas imagens.

Como me orientou o professor, procure o Gráfico 1, na página 26 do arquivo em pdf. O gráfico diz respeito ao peso da classe social (origem de classe) e da raça nas chances de se fazer transições educacionais (desde “entrou na escola” até “completou a universidade”). Veja o comportamento da curva inferior do gráfico. É a única que reflete raça. As outras refletem origem de classe. Essa curva inferior indica que a raça pesa menos do que a classe social até que o indivíduo complete o 2º grau. Em seguida, ela ganha maior peso do que a curva “filho de trabalhadores trabalhadores não-manuais versus filhos de trabalhadores rurais”. Essa é a categoria que representa o menor contraste entre origens de classe. A curva da raça fica próxima da curva “filhos de trabalhadores manuais urbanos versus filhos de trabalhadores rurais”. Ou seja, a curva que retrata a diferença social entre trabalhadores braçais da cidade e do campo. E fica abaixo da curva “filhos de profissionais versus filhos de trabalhadores rurais”. Essa, que representa oposição muito forte de origem de classe, digamos, para ilustrar, entre o filho do médico e o filho do bóia-fria, tem peso maior do que a da raça.

Muito bem. Paciência, e vamos adiante. O professor Costa Ribeiro agora chama a atenção para uma figura e outro gráfico. A Figura 1, da página 29, chama-se “Chances estimadas de Homens Brancos e Negros se Tornarem Trabalhadores Manuais ao invés de Trabalhadores Rurais, por Anos de Escolaridade”. O título explica, mas vale a pena reforçar: se o número de anos passados na escola faz alguma diferença para brancos e não-brancos subirem da condição de trabalho considerada mais baixa na escala para a que é considerada imediatamente superior a ela. Resultado: a raça não pesa rigorosamente nada.

E chegamos ao Gráfico 4, na página 30. Quando se trata do salto mais difícil – usando a mesma comparação: o filho do bóia-fria virar doutor –, a curva do negro, aos 15 anos passados na escola, pára num ponto bem inferior ao da curva do branco com o mesmo tempo de escolaridade.

Estudo fala da desigualdade de oportunidades, não de condições

Certo. Agora dou a palavra a Costa Ribeiro (entrevista feita hoje), usando o estilo de abrir aspas a cada parágrafo:

“Esse estudo que eu fiz sobre Classe, Raça e Mobilidade Social no Brasil trata das desigualdades de oportunidade. Oportunidades educacionais e oportunidades de mobilidade social. Quanto às oportunidades educacionais, o que o estudo mostra é que, nos patamares mais baixos do sistema educacional, as desigualdades de classe se sobrepõem às desigualdades de raça com bastante clareza. Nos patamares educacionais mais altos a desigualdade racial se torna equivalente à desigualdade de classe, entendida aqui como desigualdade da classe de origem das pessoas. Essa é a conclusão.

“Na hierarquia ocupacional da sociedade, que diz respeito às chances de mobilidade social – eu quero saber se há desigualdade nas chances de mobilidade social –, para alcançar ocupações hierarquicamente baixas ou médias na estrutura ocupacional da sociedade é a origem de classe que pesa e não há diferença de chances entre brancos e não-brancos. É a origem de classe que pesa com mais força. Quando se chega nas ocupações mais altas hierarquicamente, há claramente uma desigualdade racial, em que brancos têm mais chances do que não-brancos de alcançar posições ocupacionais mais altas. Isso, controlando pela classe de origem. Ou seja, independentemente da classe de origem.

“O meu estudo mostra isso. Isso não comprova que existe discriminação ou outra coisa. Ele apenas mostra que existe um tipo de desigualdade e ele vai além de outros estudos porque está tratando de duas coisas que não são geralmente tratadas. Uma coisa é a desigualdade de oportunidades, de que eu estou falando, enquanto vários outros estudos falam da desigualdade de condições. Ao falar da desigualdade de oportunidades ele traz uma novidade em relação a outros estudos que foram feitos. E afinal de contas é nas oportunidades que estamos interessados.

“A outra novidade é que ele mostra que as desigualdades raciais aparecem de forma mais clara nas hierarquias mais altas da sociedade.

“Isso diz que existe discriminação? Não sei. A discriminação é uma outra coisa. Ele diz que existe desigualdade racial na estrutura ocupacional mais alta e a desigualdade de classe predomina embaixo.

Desigualdade é diferente de discriminação

“O Brasil é diferente de outras sociedades. Em outras sociedades a desigualdade racial está lá embaixo, a desigualdade de oportunidades. Os negros pobres e brancos pobres nos Estados Unidos têm chances diferenciadas. No Brasil parece ser diferente.

“Eu gostaria de ressaltar também uma outra coisa. Desigualdade é diferente de discriminação. Discriminação é uma outra coisa, e nós ainda temos que avançar. O meu estudo indica que talvez haja discriminação no andar de cima, se você quiser usar essa metáfora, mas ele não comprova que existe discriminação. Temos que avançar ainda para entender se existe discriminação.

“Podemos ter opinião, achando que existe ou não discriminação. Particularmante eu acho que existe discriminação, mas o estudo não mostra isso. Mostra que existe desigualdade.”

Volto agora ao texto de apresentação da entrevista escrito antes da conversa de hoje com o professor Costa Ribeiro.

O contraste entre Gaspari e Petry

Resumo as palavras de Elio Gaspari:

“O professor Carlos Antonio Costa Ribeiro jogou nova luz sobre uma velha encrenca nacional. Os negros não chegam ao andar de cima porque são negros ou porque são pobres? (....) Ele sustenta que os negros de Pindorama carregam dois fardos. Até o patamar dos 12 anos de escolaridade, prevalecem as desigualdades de classe. Daí para cima, pesa a barreira da cor. (....) Costa Ribeiro (....) sugere um reordenamento do debate da questão classe/raça. Não é conclusão dele, mas parece que o preconceito aparece quando se desafia o velho bordão racista: o negro precisa saber o seu lugar”.

Gaspari dá em seguida o link para o texto.

O artigo de André Petry na Veja diz que “o trabalho do sociólogo prova estatisticamente que existe discriminação racial no Brasil, o que não é novidade”. Não é novidade, mas o trabalho não prova isso. Simplesmente porque não trata disso. Trata de desigualdade.

E é impossível provar “estatisticamente” que existe discriminação. É possível fazer pesquisas que comprovem a discriminação, mas não é possível demonstrar isso com estatísticas. Na entrevista dada ao Observatório em 4 de maio (ou seja, sem conhecer o texto de Petry), Costa Ribeiro relatou:

“Há um psicólogo social negro americano que fez uma pesquisa muito interessante. Lá nos Estados Unidos se diz que os negros são piores do que os brancos em testes cognitivos de expressão verbal. Ele fez testes cognitivos de expressão verbal e aplicou a uma série de grupos de estudantes, só que para alguns grupos ele dizia que era um teste de expressão verbal e para outros grupos não dizia nada, só que era um teste. Dava uma outra denominação para aquilo que não fosse aquela denominação específica. E o que ele descobriu? Que os negros, quando se diz que há um teste de expressão verbal, realmente ficam piores que os brancos, mas, quando não se diz nada, não há diferença. É uma espécie de internalização de um estereótipo”.

Isso é possível. Também é possível fazer pesquisas de opinião que mostrem preconceito, indicador de práticas discriminatórias. Mas ainda aqui estamos num terreno diferente do da comprovação estatística.

O texto de Petry, “O pobre e o negro”, continua rumo ao término:

“Portanto, as políticas raciais do governo beneficiam uma elite negra, que chegou lá e precisa de ajuda para lá ficar, e não a imensa maioria negra, que é pobre e não consegue sair do lugar. Isso sugere que o governo seria mais justo e eficaz com negros e pardos se combatesse a pobreza. O movimento negro, em vez de ameaçar professores, deveria pensar nisso”.

Sim, antes que me esqueça. Petry abre seu texto lamentando que a ministra da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, não tenha seguido o exemplo da Universidade Princeton, onde Costa Ribeiro teria ido apresentar o texto a que se refere o presente tópico. Um pequeno detalhe é que a viagem do professor a Princeton não foi para apresentar exatamente “Classe, raça e mobilidade social no Brasil”. Foi para apresentar outro trabalho, por enquanto com título apenas em inglês, “Educational Expansion and Inequality of Educational Opportunity in Brazil: Maximally Maintained Inequality and the Race/Class Debate”. Desenvolve mais a parte sobre educação do texto “Classe, raça...”; os resultados sobre raça e classe são muito semelhantes, embora ele tenha usado outro banco de dados. Bem, fechemos as páginas da Veja.

Entre os textos de Gaspari e Petry, Carlos Antonio Costa Ribeiro deu uma entrevista ao jornal gratuito paulistano Destak (7 de maio). O autor da reportagem é Vinícius Rodrigues Vieira. O professor do Iuperj aponta-a como correta, bem-feita. O Destak já entrou na internet. Clique aqui para ler a reportagem. [ http://www.destakjornal.com.br/noticia.asp?ref=4997 ]

Finalmente, cansado leitor, vamos à entrevista feita pelo Observatório da Imprensa em 4 de maio.

"Desigualdade racial aparece na disputa por posições mais valorizadas"

Qual é a idéia básica de seu texto?

Carlos Antonio da Costa Ribeiro – É na disputa por posições mais valorizadas que a desigualdade racial aparece e fica tão grande quanto a desigualdade de classes. Antes, a desigualdade de classes predomina muito mais que a racial; em alguns casos, inclusive, a racial não aparece. Essa que é a idéia básica.

Como é que isso incide na prática? Como é que isso poderia incidir no debate que se trava, sobretudo nos últimos meses, na mídia, com grande intensidade. Eu não diria que é um debate popular (ele não é); é um debate de elite. São as elites do movimento negro, elites do Estado brasileiro e da academia, e jornalistas se digladiando em torno de posições extremamente aguerridas, às vezes até insultuosas. A minha percepção seria a seguinte: como em todos os grandes agregados, quando se vai descendo aos detalhes, se vai decompondo, para descrever o fenômeno, vai-se descobrindo que não se pode aplicar o mesmo conceito que foi aplicado ao todo. Por exemplo, o Brasil é um país pobre; pode ser e pode não ser, depende do que se está falando. Se se comparar com a Islândia, é; se se comparar com o Paraguai, ou com Zâmbia, não é. No Brasil a questão da raça interfere na ascensão social, ou na educação, ou na ocupação, que é mais grave, mais palpável. O que se está lendo aqui nesse trabalho é: sim e não. Ou não e sim, seguindo a ordem de idade. O que isso recomendaria aos debatedores e, portanto, à mídia?

C.A.C.R. – O debate atual, talvez seja normal em uma coisa desse tipo, às vezes é muito maniqueísta, nesse sentido. Porque ou é uma coisa, ou é outra. Alguns dizem: “Não tem nenhuma forma de discriminação racial no Brasil; não tem desigualdade racial – ela é uma desigualdade que é conseqüência das desigualdades de classe”. E tem uma outra posição, que vai para o outro lado, que diz: “Existe desigualdade racial, que é espalhada pelo Brasil inteiro, por todos os lugares”. Então, a minha posição é um pouco a de dizer “Vamos com calma”, “Vamos ver com um pouquinho mais de calma isso aqui, o que estamos observando aqui”. E, principalmente, se é isso, temos que olhar para uma variável que as pessoas, geralmente, não olham, que é a origem de classe das pessoas.

Pode-se medir isso de maneiras diferentes, mas a maneira mais comum de se medir é pela ocupação. Mede-se pela ocupação do pai, porque não se tem muito como perguntar qual era a renda do pai (ninguém vai lembrar qual era a renda do pai). É preciso perguntar qual era a ocupação do seu pai quando você estava crescendo, quantos anos de educação seu pai tinha, sua mãe tinha. A partir dessas perguntas podemos saber qual era a situação sócio-econômica da onde a pessoa partiu.

E o Brasil dispõe de aparato estatístico que já recolhe esse tipo de informação?

C.A.C.R. – Recolhe. O último banco de dados que tem esse tipo de informação nacional, mais geral do Brasil, são os dados de 1996, já são antigos. Então, temos que ter dados novos nesse sentido. Mas eles não perguntam “Qual era a ocupação do seu pai quando você tinha 15 anos (ou quando você estava crescendo), qual era a educação da sua mãe?” Isso não perguntam.

Isso só perguntaram em 1996?

C.A.C.R. – E em outros anos anteriores também.

O triângulo básico da estratificação na sociedade

E por que essa pergunta deixou de ser feita?

C.A.C.R. – Sinceramente, eu não sei. Eu acho que seria importante. Pelo menos, por exemplo, educação da mãe é uma pergunta importantíssima, porque ela define milhões de coisas na pessoa, desde mortalidade infantil até a chance de entrar na universidade. Então seria importante que se perguntasse esse tipo de coisa. Na Pnad [Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios] se tem como ver isso para as crianças, porque é uma pesquisa domiciliar. As crianças moram com os pais. O pesquisador vai saber o que os pais fazem. Mas não se tem como ver para os adultos. Por causa de políticas do IBGE, eles até estão querendo passar a coletar esse tipo de coisa. Eu recebi, outro dia, uma carta deles convidando para uma reunião em que iam discutir esse tipo de coisa. Mas eu acho que é essa a idéia. A minha idéia é usar essa variável, para ver quais são as chances.

Eu vejo um triângulo. Há um triângulo básico da estratificação na sociedade. [Ver na página 6 do trabalho de Costa Ribeiro.] A idéia é saber se as desigualdades são transmitidas de geração para geração. Essa é a pergunta. Não é só se tem desigualdade agora. Pode até ter desigualdade agora, mas eu quero saber se a desigualdade é transmitida de geração para geração. Então, tem-se a origem da pessoa (a origem sócio-econômica dela), a educação que ela alcança e o destino sócio-econômico dela, que é o lugar onde ela chega, a ocupação que ela alcança enquanto adulto.

Nesse artigo, eu vejo esse triângulo. Primeiro eu olho a relação total, sem levar em conta a educação: qual é a relação da origem com o destino da pessoa. E se há diferença entre pretos, pardos e brancos. Em seguida eu mostro que, para aqueles que estão nas classes mais baixas, nas ocupações mais baixas, não tem diferença racial. As chances dele de mobilidade, de chegar a um determinado destino, são inteiramente determinadas por sua origem de classe, por sua origem sócio-econômica. Quando se chega até os filhos das pessoas que estão nas ocupações mais altas, os brancos têm mais chances de permanecer lá do que os negros. Essa é uma conclusão.

Então, parece que o problema está mais acima na hierarquia. Depois eu analiso outra coisa, que é a transição, a entrada na escola. A passagem por diversas barreiras educacionais. Entrar na escola. Para entrar na escola, o que pesa mais? A origem de classe pesa mais do que a raça; a raça tem um efeito, mas a maior desigualdade que existe é a desigualdade de classe – independentemente da cor. Depois vou vendo as diversas transições: aqueles que entraram na escola que completaram o primeiro grau; aqueles que completaram o primeiro grau que completaram o segundo grau; aqueles que completaram o segundo grau que completaram um ano de universidade. Quando chega nessa etapa de completar um ano de universidade, o efeito, a desigualdade de classe está diminuindo e a desigualdade racial não diminui tanto. Na verdade, ela aumenta um pouquinho nessa transição. O que acontece é que nesse ponto a desigualdade racial fica maior que a desigualdade... ou equivalente à desigualdade de classes. No caso não é maior, é equivalente. Isso significa que também, de novo, quanto mais acima você chega, mais aparece essa desigualdade racial.

No mercado de trabalho pode haver discriminação

Permita-me tentar fazer duas extrapolações um pouco impressionistas, jornalísticas, vamos dizer assim. Uma é a seguinte: como era de se imaginar, no Brasil, o que se faz? Dá-se uma solução para uma parte do pessoal e para o resto se diz “Não, aqui não. Não é bem assim, neguinho! Tudo bem... entra na escola, faz o primário...”. Aliás, uma pessoa entrevistada pelo Museu da Pessoa [ http://www.museudapessoa.net/MuseuVirtual/hmdepoente/depoimentoDepoente.do?action=ver&idDepoenteHome=4739 ], uma mulher muito importante do movimento negro, chama-se Diva Moreira, diz que a mãe dela trabalhava em uma pensão e ela morava lá com a mãe. Ela terminou o quarto ano, em Belo Horizonte, e os donos da pensão falaram: “Para você, está bom! Você é preta! Não precisa mais. Estudar para quê?”. Claro que eu estou simplificando, mas é um pouco a cabeça da elite brasileira. Que vai recuando, mas vai um pouco empurrando com o pé: “Olha. Aqui neste condomínio exclusivo, não. Aqui nessa escola de alto padrão, não”. Um pouco isso, não? Faz sentido isso, para um olhar sociológico?

C.A.C.R. – Eu acho que faz sentido. Que está claro que a desigualdade está nas posições mais valorizadas: quando você chega para ocupar as posições mais valorizadas, a desigualdade racial aparece mais. Os mecanismos que levam isso a ocorrer, eu não sei direito. Podem ser vários e diferenciados. Todos temos opiniões, mas eu duvido muito das nossas opiniões. Pode ser discriminação, o vestibular talvez não seja discriminação, porque o vestibular não discrimina – é uma prova, não? Pode ser que sejam desvantagens acumuladas. Ou então pode ser que as pessoas acreditem menos, algumas pessoas, acreditem menos que vão conseguir entrar do que outras.

Mas quando chega no mercado de trabalho, é bem claro, pode ser que realmente seja discriminação. Porque aí o empregador diz: eu tenho um negro, eu tenho branco, eu não quero negro, eu quero branco. Mas para medir isso precisamos ter mais conhecimento, mais pesquisas.

É preciso estudar melhor os mecanismos da desigualdade

Se o seu estudo tiver um grau de aceitação razoável, na academia ou nas instancias que são encarregadas de validar esse tipo de trabalho, seria indicado partir para uma nova pesquisa acadêmica, que também envolveria jornalismo, porque uma coisa caminha junto com a outra.

C.A.C.R. – Seria muito interessante ir adiante. Esse debate está crescendo. Temos que entender melhor quais são os mecanismos que levam isso a ocorrer. De certa forma, quando estou falando de desigualdade de oportunidades, estou chegando mais próximo da idéia de que pode haver alguma forma de discriminação, porque até podemos aceitar alguma forma de desigualdade de condições – não temos dificuldade em aceitar que um médico ganhe mais que o faxineiro do hospital, não?...

Não precisa ganhar quarenta vezes mais.

C.A.C.R. – ... Mas, enfim, alguma coisa a mais ele vai ganhar, e isso significa que vai ter sempre uma desigualdade. Agora, não aceitamos, e faz parte da nossa sociedade, a idéia de que o filho do faxineiro tenha menos chances de se tornar médico do que o filho do médico. Isso não faz sentido na nossa ideologia. Então, na medida em que estou estudando a desigualdade nesse aspecto, e mostrando que tem um componente de cor aí (uma diferença, uma desigualdade de oportunidade de cor entre brancos e não-brancos), isso indica, de alguma forma, que deve haver uma forma de discriminação. Isso não pode ser justo.

Formas diferenciadas de combater as desigualdades

Desse ponto de vista, me parece que a legislação de ação afirmativa não está mal posta. Por quê? Porque já se tem a universalização do ensino básico. Isso já está dado. Ninguém fez nenhuma lei para dizer assim “Crianças negras têm que entrar na escola pública”. Não existe, isso já está dado. Nunca foi proibido – entre aspas. E a legislação põe o acento lá para cima. Nos cargos do governo federal, e assim por diante. Me parece que pode haver aí uma sensibilidade correta de e detectar e dizer “Quero ver como é que o negócio anda aí”. Não necessariamente eu estou dizendo, com isso, que as ações afirmativas vão resolver. Por enquanto, estou pensando só no feeling. Quer dizer, olharam o panorama e disseram: “O problema não está lá embaixo. O problema está lá em cima”.

C.A.C.R. – É. O problema está lá em cima. A conclusão do meu artigo é essa – está clara a conclusão. Eu não estou pensando nas formas de se fazer ação afirmativa. Eu acho que são necessários mais estudos. Meu artigo é um artigo falando de uma coisa. Tem que ter muitos mais estudos para que possamos formular políticas mais conseqüentes, mais interessantes. Eu acho que isso é que deve ser feito. Não sou contra fazer uma política de equalização de oportunidades – acho que isso é fundamental e importante, mas não sei qual é a maneira de se fazer. Também não estou propondo uma maneira de se fazer isso. Por exemplo: eu soube que a Unicamp e a USP têm uma política que é um pouquinho diferente, porque ela não determina cotas, mas dá um ** plus na nota de certas pessoas que estão com desvantagem.

Vamos supor, por exemplo, que o filho de um jornalista de elite está competindo com o filho de uma empregada doméstica que estudou sempre na escola pública. O outro estudou sempre na escola privada, tem experiência no exterior, sabe falar inglês, e o garoto filho da empregada não sabe; sempre foi um bom aluno na escola dele, mas estudou numa escola ruim, enquanto o outro sempre foi um aluno mediano e estudou numa escola muito boa. Esse filho dessa pessoa da elite tira nota 7 para entrar no vestibular. O outro tira 6,7. Qual é a diferença de três pontos décimos, aqui? De certa forma, isso significa que aquele garoto, que talvez seja um garoto pobre, negro, se esforçou enormemente para tirar 6,7 e o filho da pessoa da elite, na realidade, foi um pouco preguiçoso, porque era para ele tirar 8,5. Então, essa diferença de três décimos ela não pode... Aí poderiam ser criados mecanismos para dar pesos diferenciados, sem tirar completamente a idéia de que tem que ter o mérito. Isso poderia ser uma maneira de entrar na universidade. Ou poderia ser válido também para certos concursos, uma coisa escalonada. Primeiro, para preencher as vagas, vamos tomar a situação socioeconômica e, se houver um empate na situação socioeconômica, vamos olhar outras características – vem de uma família completa? Vem de uma família sem pai? É branco? É negro? Várias coisas. Um * * mix de coisas para se fazer isso.

Como o debate racial é tão acirrado, talvez nem mencionar a raça fosse uma coisa mais eficiente para alcançar os fins. Dou um exemplo. Se se decidisse que os melhores alunos das escolas públicas podem entrar na universidade, se levariam vários negros lá para dentro também.

Só estou pensando qual seria a maneira mais eficiente de corrigir um pouco isso. Deve haver alguma correção, só que eu não sei qual é a maneira. Eu não tenho uma fórmula para isso. Eu acho que a raça deve ser levada em conta, mas não só isso.

Eu percebo que o debate ainda está no começo. O problema não está no começo. O problema é velho para burro. Tem em toda a História do Brasil e cem anos de fim formal da escravidão sem fim efetivo. É uma coisa dolorosíssima. O seu artigo já foi glosado academicamente? Como é que está esse processo?

C.A.C.R. – Ele está em uma revista acadêmica que foi publicada no Recife. A versão que está na página da internet é anterior à publicação da revista Dados.

Na bibliografia havia ainda uma corrigendas.

C.A.C.R. – Sim. É porque eu botei na minha página já há algum tempo; várias pessoas têm interesse nisso e me pedem, e eu botei na página.

Estudos específicos para conhecer mecanismos de discriminação

E qual é a próxima instância de validação ou refutação do texto?

C.A.C.R. – Seria necessário fazer uma coisa que eu acho muito interessante: primeiro, prestar atenção na transmissão das desigualdades ao longo das gerações. É importante e há muito poucos trabalhos sobre isso. A maior parte dos trabalhos sobre desigualdade racial não olha para isso, que na realidade é o foco do debate. O foco do debate não é simplesmente que existe desigualdade, que tem mais negros pobres do que brancos pobres...

Sim. Proporcionalmente...

C.A.C.R. – Que tem uma sobre-representação de negros, de não-brancos nos estratos mais baixos, com renda mais baixa. Isso aí pode ser uma conseqüência das origens de classe das pessoas. Eu acho que prestar atenção nessa transmissão das desigualdades é importante. É como se a desigualdade que se vê hoje fosse uma conseqüência da desigualdade de ontem, e ela tem de ser entendida dessa forma – e não apenas tirar fotografias, porque a maioria dos estudos são fotografias da desigualdade, não estudam o processo de como isso se dá. E ao se estudar o processo se podem ver alguns mecanismos importantes.

Outra coisa interessante são trabalhos focalizando diretamente para tentar entender quais são os mecanismos de discriminação. Por exemplo, há trabalhos interessantes que são feitos por alguns sociólogos, aqui no Brasil não conheço ninguém que tenha feito. Não são quantitativos propriamente ditos: treina-se um grupo de estudantes, atores, digamos, alguns brancos, outros negros. Formula-se para eles um currículo, uma história muito parecida, e eles vão procurar determinado tipo de emprego. A única diferença entre os dois grupos é que um é de negros. Construiu-se aquilo – mas é uma fantasia no mundo real. Isso seria um estudo interessantíssimo de ser feito.

Ou então, por exemplo, estudos também de psicólogos sociais. Há um psicólogo social negro americano que fez uma pesquisa muito interessante. Lá nos Estados Unidos se diz os negros são piores do que os brancos em testes cognitivos de expressão verbal. Ele fez testes cognitivos de expressão verbal e aplicou a uma série de grupos de estudantes, só que para alguns grupos ele dizia que era um teste de expressão verbal e para outros grupos não dizia nada, só que era um teste. Dava uma outra denominação para aquilo que não fosse aquela denominação específica. E o que ele descobriu? Que os negros, quando se diz que há um teste de expressão verbal, realmente ficam piores que os brancos, mas quando não se diz nada não há diferença. É uma espécie de internalização de um estereótipo. Esse tipo de estudos seria interessante fazer para tentarmos desvendar um pouco mais como que se dá a discriminação propriamente dita. É um campo fértil. Eu tento, aqui, convencer alunos meus a fazer esse tipo de coisa.

Num jornal gratuito, a única reportagem

Agora, voltando para a questão da mídia propriamente dita. Bom. Elio Gaspari publicou a nota dele no domingo. Muito bem. O que aconteceu depois na mídia? Alguma coisa aconteceu? [Lembrar que a entrevista foi feita em 4 de maio.]

C.A.C.R. – Eu não vi. Vários jornalistas entraram em contato comigo.

Isso ainda não resultou em nenhuma reportagem?

C.A.C.R. – Não. Mais nada. Vários jornalistas. Você me ligou, teve um outro, de rádio, que me ligou, teve uma outra pessoa de São Paulo, de um jornal chamado Destak.

Um jornal gratuito. Bom jornal.

C.A.C.R. – É bom. Eu vi na página. Pareceu ser muito bom e eu fiz uma entrevista, foi um jornalista muito sério, tinha lido o artigo todo também. Eu gostaria era de lançar um pouco esse debate. Porque o debate, eu tenho a impressão que é assim: se você é contra as cotas é porque algumas pessoas, nem todas, falam que é uma posição discriminatória, e se você é a favor das cotas, aí os outros dizem também que é discriminatória. Que se está racializando. Então não se tem saída: ou se é racista, ou se é racista! Temos que pensar um pouco com mais calma. Essa é a minha opinião.

"É preciso tomar cuidado para não copiar as idéias dos outros"

Usam um argumento, o argumento biológico, que não é a questão. A questão é cultural, não é biológica.[Ver “Muniz Sodré: questão racial deve ser vista sem subterfúgios”.] [ http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=4&id={1211B1D1-1834-4487-BB70-88863FC6EABC}&data=200612 ]


C.A.C.R. – Eu acho que tem racismo, tem discriminação, mas eu também acho que é diferente dos Estados Unidos. É preciso tomar cuidado para não a comprar a idéia dos outros e usar. Nós, como país colonizado, temos essa tendência, mas não é nem uma coisa nem outra. Tem discriminação – eu acho que já tem muitas pesquisas mostrando que tem desigualdade, que tem desigualdade de oportunidade, embora seja preciso fazer mais pesquisas –, mas meu artigo focaliza uma coisa. Parece que não tem discriminação aqui embaixo. Nos Estados Unidos, tem. O que eu estou dizendo é que, entre as classes trabalhadoras, tem menos. Estudos mostram, por exemplo, que casamentos interraciais no Brasil são muito mais comuns nos que nos Estados Unidos e, principalmente, nas classes mais baixas. Tem alguma diferença. Talvez nas classes mais altas haja menos casamentos interraciais no Brasil – nas classes mais baixas há mais. E nos Estados Unidos não tem. Tem muito pouco.

O Brasil tem algumas especificidades que precisamos entender. E precisamos levar a sério o que os vários pesquisadores têm dito ao longo do tempo. Eles tinham percepção para certo tipo de coisa que caracteriza o Brasil nesse aspecto, quais são as coisas em comum. Enfim, eu acho que tem discriminação, que não é...

A maravilhosa democracia racial, como desejariam que fosse.

C.A.C.R. – Não é. Mas nem de perto! Mas nem o Gilberto Freyre falava assim. O negócio de democracia racial do Gilberto Freyre, ele falava de uma maneira muito mais complicada do que isso. Quando ele fala da escravidão é uma coisa muito mais complicada – não sei se você teve a oportunidade de ler o livro.

Não.

C.A.C.R. – Ele fala de momentos de extrema harmonia e de outros de violência atroz. E justamente o problema dele é tentar entender como é possível isso. Você ter tanta violência e às vezes pouca. Então, é mais complicado do que isso. Mas no debate as coisas ficam acirradas de um lado ou de outro. O que é normal, também. E, de certa forma, talvez o debate esteja mais forte porque justamente a competição está maior. Conforme a competição começa a ficar maior, as pessoas começam a usar todas as suas armas. Começam a ficar talvez mais discriminatórias. Isso é uma outra coisa que acontece no Brasil também: a competição por posições privilegiadas aumentou ao longo das décadas. E isso significa que a desigualdade de oportunidades diminuiu. Então quem está na elite tem que competir mais com quem vem de baixo. Isso está surgindo – no Brasil tem acontecido nas últimas décadas. Então, se isso está acontecendo, uma das maneiras de ver isso é ver que a competição está aumentando. A classe média está mais preocupada. Antigamente era mais fácil a classe média passar para seus filhos a sua posição.

É só entrar numa redação de jornal.

C.A.C.R. – Exatamente. Você entrando numa redação de jornal vê que tem pessoas diferentes.

Há vinte anos já começou a mudar. Eu entrei em jornal há quarenta e um anos. Tinha um ou outro negro, mas era excepcional. Na Tribuna da Imprensa tinha o Caó, Carlos Alberto Oliveira, mas era um universitário, um estudante de Direito da Bahia, ou já era formado em advocacia, totalmente politizado – nisso, era igual aos outros.

C.A.C.R. – Era excepcional que entrasse um pobre. Todos eram filhos de alguém.

Vinte anos depois, no Jornal do Brasil, já tinha havido uma mudança. Isso, no Exército brasileiro, alguém observou na época, ficou muito claro quando o ônibus que vai buscar o pessoal em Resende... a primeira parada era em Bonsucesso e a última no Leblon, e naquela altura a última era em Bonsucesso. Não tinha mais ninguém da Zona Sul na Academia Militar das Agulhas Negras. Talvez agora haja de novo, porque tem gente pobre na Zona Sul. Mas o último de classe média da Zona Sul que eu conheci, que se tornou oficial do Exército, no Rio – hoje já pode ser até reformado –, foi em 1969, e era filho de um general.

C.A.C.R. – Eu acho que a sua percepção, os dados estatísticos confirmam isso. Que a competição está aumentando. As pessoas começam a usar todos os seus recursos.

E a mídia é um recurso fundamental, não?

C.A.C.R. – A mídia é um recurso, sem dúvida. Acho que parte do debate que se vê na mídia talvez tenha a ver com isso. Se bem que não é tão claro, porque às vezes a pessoa não está fazendo para o seu bem. Não está sendo ameaçada.

Não. Os corifeus já chegaram lá. Todos que têm poder de falar já estão lá, mas talvez estejam pensando nos filhos, nos netos. Inconscientemente.

C.A.C.R. – Acho que é um pouco mais sutil, mas, de qualquer forma, faz parte, tem o movimento negro, tem que respeitar tudo.

O movimento negro é muito fraco no Brasil. É um milagre ter chegado onde chegou, porque historicamente ele foi fraco sempre. É uma coisa que também tem que ser estudada: por que é que foi tão fraco sempre?

C.A.C.R. – Há alguns estudos sobre isso.

Perversão: escolas de 2º grau privadas e melhores universidades, públicas

Voltando a seu trabalho, a desigualdade social no ensino é tremenda.

C.A.C.R. – No exterior, quando eu digo que as melhores escolas de segundo grau são privadas e as melhores universidades são públicas, as pessoas não conseguem acreditar nisso, acham isso uma perversidade absurda. Há políticos que estão tentando mudar esse quadro. O Fundef [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério], essas coisas são muito importantes, porque parte dessa desigualdade educacional no Brasil diz respeito à própria estrutura do financiamento do sistema educacional. Sempre as escolas elementares foram financiadas pelos municípios – que são a parte pobre do governo. E as universidades e as escolas de segundo grau, pelo estado, que é um pouquinho melhor, mais forte. E as universidades, financiadas pelo governo federal, que é o mais rico de todos. Ao invés de dar só cobertura para as escolas, tem que fazer as escolas ficarem boas.

E os resultados agora mostraram que as melhores de todas as escolas são as escolas federais. Acabou de sair o resultado.

C.A.C.R. – Mais um exemplo. Pedro II, Aplicação. É verdade.

(Entrevista transcrita por Tatiane Klein.)


enviada por Saaato!!



20/05/2007 12:49
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=433JDB009

TV GLOBO
Quilombolas acusam emissora de denúncia fraudulenta

Por Bia Barbosa em 18/5/2007

Reproduzido da Agência Carta Maior, 17/5/2007
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil, e o Decreto 4.887/2003 da Presidência da República asseguram que as pessoas remanescentes de quilombos são as responsáveis pela sua auto-definição. Pela legislação em vigor no Brasil, a auto-atribuição dos povos e comunidades tradicionais é parte necessária nos processo de regularização fundiária dos quilombolas.

Com base nesta premissa, uma equipe da TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, esteve em São Francisco do Paraguaçu, uma das onze comunidades do Recôncavo Baiano reconhecidas como remanescentes de quilombos, cujo processo de titulação das terras está em fase final. Nas últimas segunda e terça (14 e 15), veiculou no Jornal Nacional o resultado de sua visita em duas reportagens, intituladas "Suspeitas de fraude em área que vai ser reconhecida como quilombola" e "Incra promete apurar denúncias de fraude no Recôncavo Baiano".

Nas matérias, a emissora apresenta supostos indícios de uma fraude que estaria levando ao reconhecimento das terras. Conversa com moradores que nunca teriam ouvido falar da existência de um quilombo na região; afirma que não existem resquícios de engenhos de cana-de-açúcar no local, onde os escravos teriam trabalhado; e apresenta um documento de pedido de reconhecimento das terras com assinaturas de pessoas que teriam se auto-definido descendentes. Algumas delas, no entanto, teriam sido colhidas para outra finalidade. Na reportagem, o líder comunitário Anselmo Ferreira, que coordenou o projeto que pediu o reconhecimento, afirma que não sabe quem fez a montagem no documento.

Apesar da declaração de José Vieira Leal, superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) na Bahia, de que há cerca de 100% de indicação de que a área é realmente um território quilombola, a reportagem mantém a denúncia.

Indignada, a comunidade de São Francisco do Paraguaçu, localizada no município de Cachoeira, divulgou uma nota pública contestando as informações veiculadas pela Rede Globo, em que afirma que a emissora produziu uma reportagem "fraudulenta e tendenciosa, sem oferecer a comunidade nenhuma oportunidade para se defender".

"Fomos testemunhas do teatro que foi armado por ocasião das filmagens, onde boa parte da comunidade envolvida na luta pela regularização do território quilombola nem sequer foi ouvida, visto que a equipe de reportagem se recusou a registrar qualquer versão contrária aos interesses dos fazendeiros", diz a nota, que também informa que os moradores tentaram conversar com a equipe da TV Bahia, sem sucesso.

Concessionária de serviço público

De acordo com a antropóloga Camila Dutervil, que trabalha com a comunidade, a região do Recôncavo Baiano foi ocupada por escravos que trabalharam nos canaviais que começaram a ser plantados no século XVI e na construção do Convento de Santo Antônio, concluído no final do século XVII, em cujo interior está enterrada uma família de portugueses, senhores das usinas de cana Cotinga e do Engenho da Peninha. A área onde foi construído o convento corresponde a duas sesmarias de terra e foi doada aos padres franciscanos pela família proprietária do engenho. Durante a construção do convento, muitos negros que teriam fugido do trabalho árduo e se refugiado na mata iniciaram o processo de formação do quilombo.

"O Jornal Nacional afirmou que engenhos de açúcar nunca existiram na região, ignorando o fato de que uma das áreas pleiteadas trata-se de uma das primeiras fazendas de exportação de açúcar para a Europa, onde existiu um engenho muito importante, cujas ruínas podem ser observadas até hoje", afirma Carla.

Atualmente, cerca de 300 famílias vivem da agricultura de subsistência, da pesca, da coleta de marisco e do extrativismo da piaçava no local. A atividade produtiva é baseada no trabalho familiar, na cooperação entre diferentes grupos domésticos e no uso comum dos recursos naturais. "Historicamente, nossa comunidade ocupa este território. Os relatos dos mais idosos remetem nossa presença a muitas gerações. Ali sempre praticamos um modo de vida fruto de uma longa tradição deixada por nossos ancestrais", afirmam os moradores na nota.

A Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), entidade representativa dos quilombolas de todos os estados, reafirma a existência da comunidade e de pessoas assumidas como remanescentes de quilombos no local.

"Quando a Globo coloca no ar alguém dizendo que não é descendente de escravo não significa que essa pessoa não é quilombola. O termo não é, necessariamente, utilizado por todos. As pessoas se assumem como comunidade negra, como terras de preto. Mas as nomeclaturas significam a mesma coisa", explica Givânia Maria da Silva, da Conaq.

"Não cabe à Globo apurar se as pessoas se chamam de negro, de mulato, de descendente de quilombo. Como uma concessionária de um serviço público, ela precisa respeitar os processos de cada grupo. Por que não entrevistou pessoas reunidas em grupo, onde fosse possível discutir essa questão? A reportagem também faz alusão a assinaturas recolhidas com outro objetivo no documento e entrevista o líder comunitário sobre isso. Ele mesmo diz que não reconhece algumas assinaturas, então cabe à emissora mostrar a veracidade deste documento que está publicizando e como o conseguiu", completa.

O Centro de Cultura Luiz Freire, que trabalha com comunidades quilombolas na região nordeste, também criticou a reportagem do Jornal Nacional por, em nenhum momento, abrir espaço para as pessoas que se reconhecem quilombolas naquela comunidade afirmarem as razões pelas quais reivindicam o reconhecimento oficial de sua condição étnica.

Desmatamento

No final da reportagem veiculada no dia 14 de maio, o jornalista da Rede Globo acusa os moradores de São Francisco do Paraguaçu de estarem desmatando a floresta na região. "Como se pode notar, os descendentes de quilombolas, futuros proprietários da área, estão interessados mesmo é na madeira da mata atlântica", afirma o repórter, ao mostrar cenas de toras sendo transportadas na estrada.

Os moradores, no entanto, afirmam que a área que a Rede Globo filmou não faz parte do terrritório de São Francisco do Paraguaçu. O desmatamento em questão estaria localizado na beira da estrada, antes do povoado de Santiago do Iguape, distante do início da área pleiteada pela comunidade.

"Extraímos da floresta a piaçava, o dendê, a castanha, e tantos outros produtos. Extraímos tantos tipos de cipós diferentes que usamos para fazer cofos, cestos e tantos outros artesanatos aprendidos com nossos avós. Nós amamos a floresta e a defendemos", afirmam os moradores.

De acordo com a atropóloga Carla Dutervil, a comunidade depende diretamente dos recursos naturais para a sua sobrevivência historicamente desenvolveu formas próprias de relações com o ambiente, que viabilizaram uma convivência harmônica com o ecossistema. "Os reais impactos ambientais já comprovados no território de São Francisco do Paraguaçu, foram obras de fazendeiros da região, que aterraram mangues, provocaram erosão com a construção de estradas e derrubaram a floresta para criação de gado", afirma. "Com tom disfarçado de ambientalista, o real objetivo da reportagem foi defender a manutenção dos interesses da aristocracia agrária do Recôncavo Baiano. De fato, o que está ameaçada é a liberdade de uma comunidade que viveu secularmente na sombra do patrão, se acostumou a servir e está presa por relações de exploração clientelista", completa.

Há cerca de um ano a imprensa vem noticiando conflitos entre quilombolas e fazendeiros na região. Em setembro passado, grupos armados atacaram as famílias de São Francisco do Paraguaçu, destruindo suas lavouras. Em novembro, o Incra promoveu uma audiência pública, convocada pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República, para buscar soluções para os conflitos entre os quilombolas e os fazendeiros. Como informou a Agência Brasil, com a inserção do programa Brasil Quilombola na localidade, os proprietários de imóveis rurais ampliaram as cercas de suas propriedades, dificultando as atividades das famílias que seriam beneficiadas com o fim do processo de regularização fundiária do território.

"Entendemos o que está acontecendo como uma ameaça à grande virada no país: o reconhecimento pelo Estado do dano causado historicamente por ele próprio à população negra que ajudou a construir este país. O que o latifúndio quer é que este avanço conquistado seja recuado. Uma postura como esta fere a democracia", conclui Givânia, da Conaq.

***

A resposta da Globo

A pedido da Carta Maior, a equipe do Jornal Nacional enviou a seguinte resposta à redação:

"A equipe formada por três profissionais experientes da TV Bahia passou três dias na região de São Francisco do Paraguaçu. Ouviu aposentados, pescadores, moradores antigos do vilarejo – e também o coordenador do movimento, que pede que a área seja reconhecida como remanescente de quilombo, Anselmo Ferreira. Em entrevista, Anselmo não soube explicar a origem das assinaturas do abaixo-assinado que foi entregue à Fundação Palmares. A grande maioria da população local não concorda com o projeto. Ficou claro que os moradores desconhecem a atividade artesanal do tempo dos escravos, as danças herdadas da África. Desconhecem também o nome que eles teriam criado para a área: Quilombo Freguesia do Iguape. A equipe mostrou, com imagens, que os últimos fragmentos de Mata Atlântica no Recôncavo Baiano já começaram a ser destruídos, antes mesmo do reconhecimento oficial como área que teria pertencido a escravos refugiados. Um crime ecológico que demonstra interesses comerciais na proposta do movimento".


enviada por Saaato!!



20/05/2007 12:29
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=433DAC001

ENTREVISTA / NELSON TRAQUINA
Jornalistas não ligam para a teoria

Por Mozahir Salomão, de Lisboa em 18/5/2007

"Por que os estudos teóricos contribuem pouco para melhorar o jornalismo? Deve ser porque os jornalistas lêem pouco sobre eles", dispara Nelson Traquina, professor catedrático em Jornalismo do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários livros e coletâneas de estudos sobre jornalismo [ver relação no pé desta página]. Ele é também presidente do Centro de Investigação Media e Jornalismo desde sua criação, em 1997.

Nascido nos Estados Unidos, mas de nacionalidade portuguesa, Nelson Traquina garante que a investigação teórica e os estudos jornalísticos têm muito a contribuir no sentido de melhorar o cotidiano profissional e propor reflexões sobre o exercício da atividade. "O jornalismo é muito mais complexo do que o jornalista acredita ser", afirma o atual coordenador do Departamento de Comunicação da Universidade Nova de Lisboa.

Nesta entrevista, concedida em Lisboa, Traquina fala sobre o futuro do jornal impresso, da importância e poder que tem o jornalismo na atualidade, e diz defender a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista – mas prefere que esta seja "uma exigência da própria sociedade e não o resultado de uma determinação legal".

***

Parece ter havido senão uma diminuição, pelo menos uma alteração na natureza da influência que o jornalismo exerce sobre os rumos da sociedade em suas diversas instâncias. Que movimento é esse e como o senhor define, hoje, o poder do jornalismo dentro das dinâmicas das sociedades ocidentais?

Nelson Traquina – Não houve alteração substancial. A importância do jornalismo continua tendo a ver com a projeção de acontecimentos, problemáticas e na maneira de defini-los: o seu agendamento. A teoria do agendamento, depois de 20 ou 30 anos de pesquisa, tem demonstrado como a mídia define a presença desses acontecimentos junto ao públicos – problemáticas sobre as quais, eventualmente, as pessoas não têm grande conhecimento. O jornalismo continua sendo muito importante numa realidade que é cada vez mais fragmentada, no sentido de que com certeza, hoje em dia, há uma grande multiplicidade de fontes possíveis de informação.

Essa é uma situação generalizada ou há variações muito fortes de país para país?

N. T. – Infelizmente, até hoje, tem havido pouca investigação comparativa. Portanto, essas diferenças de país para país carecem de maior investigação com estudos comparativos. Mas tomemos como exemplo a segunda Guerra do Golfo. Demonstra claramente a importância dos meios de comunicação social na definição das problemáticas – em particular, nesse caso, nos Estados Unidos, a maneira como a cobertura postou-se favorável à decisão dos Estados Unidos de se envolverem- na questão do Iraque.

Partindo da idéia de um mundo globalizado: valores, modismos, hábitos... as práticas e a narratividade da imprensa nos seus mais diversos suportes têm dado conta dessa complexificação do mundo? Ou seja, a necessidade, que parece imperiosa, de articular o global e o local?

N. T. – Há, digamos, uma potencialidade de globalização, mas qual a realidade dessa globalização? Penso que as pessoas em geral ainda não têm isso muito claro no seu espaço, na sua vida cotidiana. Vivemos ainda em espaços nacionais, com a exceção de alguns que, circunstancialmente, exploram essa globalização. As pessoas são dependentes de meios de comunicação ainda muito nacionais e muito locais. Além disso, com quem a pessoa troca e-mails? Em geral, com as pessoas da mesma nacionalidade, de sua mesma região. Há muito pouca gente que vive, digamos, num circuito global. E, portanto, eu acho que embora essa potencialidade de globalização exista, ainda continuamos marcados por circuitos definidos pelas fronteiras territoriais nacionais e locais.

Mas hoje a sensação não é de superação dessas demarcações... Seis décadas depois, por exemplo, da cobertura da Segunda Guerra Mundial, o público não se relaciona de maneira diferente com o noticiário internacional?

N. T. – Creio que sim, mas esse consumidor ainda é muito marcado pelo nacional. É claro que as condições hoje existentes facilitam isso também, mas duvido muito que uma porcentagem significativa das populações utilizem, por exemplo, a internet para ler jornais da França ou dos Estados Unidos – enfim, de um país que não seja o seu. Um ou outro caso pode até haver, mas a maioria das pessoas ainda tem essa prevalência do circuito local/nacional.

Que avaliação o senhor faz do jornalismo, especialmente agora com tanta multiplicidade de fontes de informação em função especialmente das tecnologias digitais?

N. T. – Digamos que o jornalismo está cada vez mais pressionado por questões econômicas. Isso pode traduzir-se ainda mais em limitações. Nomeadamente a investigação no jornalismo. Isso não impede, claro, que existam trabalhos jornalísticos valorosos. Quanto às novas tecnologias, elas agregam benefícios importantes também. E isso acaba por se constituir em uma "mais-valia" que faz com que o jornalismo não seja visto de uma forma tão negativa. Acho eu que a evolução tecnológica, eventualmente, traz "mais-valias" que fazem com que seja cada vez mais difícil controlar o jornalismo – como por exemplo, a multiplicação de fontes... Um avanço, por exemplo, em relação a 20 ou 30 anos.

E como vê essa preocupação de que as tecnologias digitais colocam em risco os jornais e o próprio jornalismo?

N. T. – Como não tenho 20 anos de idade, quero acreditar que a imprensa vai continuar existindo no futuro. Mas tenho que reconhecer que hábitos de leitura que existiam há duas décadas, hoje não existem mais. Percebe-se o afastamento do jovem do hábito de ler jornais e isso deve ser um alerta sobre o futuro do jornal impresso. Isso me deixa preocupado, ou seja, a falta de hábito de leitura entre os jovens.

Investir na formação de leitores pode ser um caminho, uma solução?

N. T. – Por que os jovens não lêem? Acho que não temos ainda uma boa compreensão desse fenômeno. E muito menos resposta. Temos que tentar melhor compreender as barreiras, o que faz com que as pessoas não leiam. E ainda não se descobriu uma estratégia para despertar o interesse dessas pessoas, ativar leitores. Não temos uma boa compreensão desse fato e isso me preocupa bastante.

As novas tecnologias colocam em questão também o jornalismo?

N. T. – Eu não tenho preocupações em relação ao jornalismo. Eventualmente, tenho algumas preocupações quanto ao jornal. Não sei se daqui a 20 ou 30 anos o jornal vai continuar a ser uma presença importante, mas o jornalismo com certeza, sim. Tem que haver alguém, afinal, que se ocupa de gerir a informação do dia-a-dia. De hierarquizá-la.

Entendendo que o jornalismo surge na era moderna, ele veio para definitivamente ser a ligação do indivíduo com o mundo?

N. T. – Sim, por que há cada vez mais informação. Um processo que tende a se intensificar e cada vez ficar mais complexo. E que exige que haja pessoas dedicadas a geri-lo.

Os estudos teóricos sobre o jornalismo apontam para caminhos, alternativas para superar as perdas e danos que a produção fragmentada e fabril da notícia acaba por provocar e que sempre foi denunciada por muitos desses estudos?

N. T. – Essa fragmentação é da própria natureza do jornalismo. Ser fragmentado. Ele se desenvolve muito em torno dos acontecimentos que desaparecem rapidamente, mudam de dia para dia. E ele tem que dar conta de acompanhar essa sucessão interminável de fatos. E as pessoas têm que entender, têm que reconhecer que o jornalismo tem limitações. E muitas vezes o jornalismo é encarado como se ele não tivesse essas limitações. E não são poucas, a começar pelo fato de estar tão ligado aos acontecimentos e ao cotidiano.

Mas o jornalismo acaba sendo muito criticado por áreas como a Filosofia, as Ciências Sociais por sua superficialidade e simplificações...

N. T. – São muito diferentes as perspectivas do ator que faz e a do leitor que analisa. E essas leituras que você citou são de pessoas que estão de fora do processo de produção. Portanto, desconhecem a realidade dessa prática, a jornalística, e, por conseguinte, as suas limitações.

Como explicar que nas últimas cinco décadas os estudos do jornalismo tenham avançado tanto, mas ainda parecem contribuir tão pouco para melhorar as rotinas das redações?

N. T. – Inicialmente, parece comprovar o fato de que as pessoas que fazem as notícias lêem pouco sobre o jornalismo. Estão pouco interessadas no estudo do jornalismo. E, com isso, há pouca troca de contribuições entre as pessoas que estudam jornalismo e as pessoas que, no dia-a-dia, fazem as notícias.

E há muitas contribuições que poderiam ser incorporadas ao fazer diário do jornalismo?

N. T. – Há contribuições para reflexão sobre o exercício do jornalismo e também para o trabalho cotidiano, principalmente no que diz respeito à compreensão dos seus limites. Mas é importante dizer que o jornalismo oferece, geralmente, bem mais do que se costuma identificar e reconhecer nele. Creio que muito do que o jornalismo faz de bom se perde por ele ter essa característica de ser um produto "do dia", que se perde, pois quem vai se lembrar disso daqui a uma semana? Creio que há mais riqueza no jornalismo do que simplesmente a superficialidade. Isso não quer dizer que esta não exista, mas há contribuições valiosas do jornalismo para a sociedade que geralmente acabam esquecidas.

A impressão que se tem muitas vezes é que o jornalismo é uma operação intelectual muito mais complexa que o próprio profissional que a executa acredita ser. Há estudos teóricos a este respeito?

N. T. – O profissional jornalista trabalha com uma meta: completar o seu dia, fazer sua notícia, fechar o seu jornal. Há, diariamente, uma seqüência de desafios que os jornalistas têm que vencer para dar conta de seu trabalho. Isso faz com que os jornalistas não percebam as complexidades que realmente existem na sua atividade. Acima de tudo, eles querem realizar, cumprir a tarefa de hoje. Estão pressionados para que isso ocorra pelo fator tempo, além de vários outros. Por isso mesmo, têm dificuldade de reconhecer essas complexidades, ao contrário das pessoas que estudam o jornalismo. Isso acaba por levar o jornalista a circunstâncias, por exemplo, como a simplificações em uma cobertura.

Em uma determinada situação em que haja muitas divergências, ou seja muitas posições, ele tende a ouvir apenas o "a favor " e o "contra", sem ouvir outras opiniões, não tendo sensibilidade para outras divergências ali existentes que poderiam dar a real dimensão da informação. Mas, ao mesmo tempo, os formatos e a própria linguagem do jornalismo também constituem constrangimentos. E, daí, resultam algumas acusações como superficialidade e simplificações, sendo que há, digamos, uma obrigatoriedade de o jornalista tentar simplificar.

Há formatos que vão condicionar a maneira de se tratar o acontecimento. A começar pela "pirâmide invertida". Leva a uma hierarquização das informações. É preciso ter um lead. O formato influencia pois o jornalista é levado a escolher um lead. Além disso, a própria extensão – em termos de linhas ou de tempo – da notícia condiciona bastante também.

O que prevalece na definição dos enquadramentos das diversas coberturas realizadas pela imprensa?

N. T. – Os enquadramentos se definem principalmente pelos acontecimentos a que estão relacionados e pelo tempo e maneira com que esses acontecimentos transcorrem e, também, pela própria cultura jornalística. De tal maneira que os enquadramentos impõem-se em função de fatores distintos e muitas vezes alteram-se durante o seu desenrolar. O enquadramento é a forma, a maneira como determinado acontecimento é tratado pela mídia.

Mas esses enquadramentos não são principalmente resultado de interesses de grupos?

N. T. – Têm a ver primeiro, como já disse, com os próprios acontecimentos e, depois, com esforços de promotores desses acontecimentos para que estes sejam vistos da maneira como eles tentam definir esses acontecimentos. Ou seja, as maneiras como determinados grupos envolvidos com esses acontecimentos querem que estes sejam percebidos e os efeitos que desejam que essa divulgação tenha. E tem peso também a própria cultura profissional jornalística que faz com que, eventualmente, se cerque e coloque uma marca nesses acontecimentos que, a partir daí, serão referidos dessa ou daquela maneira.

As discussões sobre a objetividade, imparcialidade ainda rondam o imaginário dos jornalistas ou pode-se dizer que ainda esses são pontos já ultrapassados?.

N. T. – De maneira alguma. E esses não são pontos de atenção e interesse apenas dos profissionais do jornalismo. É uma questão da sociedade. E são conceitos tão ligados ao jornalismo que as próprias pessoas têm dificuldade em deitar fora essa perspectiva de um jornalismo objetivo, imparcial. São valores muito defendidos e cobrados pela sociedade. As pessoas, em geral, esperam isso do jornalismo. E acabam sendo, também, critérios para avaliar a qualidade do trabalho do próprio jornalista. De forma que os jornalistas dificilmente podem escapar desses valores, pois estão muito identificados com o seu trabalho e a expectativa que dele tem a sociedade. Um veículo pode assumir posições, tornar-se partidário de teses, mas mesmo assim espera-se dele objetividade.

Por que estudar o jornalismo? É a pergunta que os teóricos se fazem neste momento. Qual efetivamente a contribuição que a universidade pode trazer para um jornalismo de mais qualidade?

N. T. – Primeiramente, sublinhar a complexidade do jornalismo e as dificuldades e desafios para o exercício da profissão. Seus limites. Ajudar a compreender os fatores que condicionam esse trabalho. Procurar sensibilizar, enfim, os profissionais para esses e muitos outros aspectos que denotam a complexidade de sua atividade. Discutir e refletir sobre essa profissão

O Brasil é um dos poucos países em que prevalece a exigência do diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista. Qual a opinião do senhor em relação a esta exigência?

N. T. – O Brasil é um dos poucos países em que existe essa exigência e creio que nesse sentido está à frente dos outros. Não sei se os outros chegarão lá. É um aspecto que considero positivo, mas gostaria que fosse, antes, uma conclusão, uma exigência da própria sociedade. Sem leis que a obrigasse a chegar a essa conclusão. Mas importante é salientar que cada vez mais vai se exigir do jornalista uma competência na área específica. E tomara que os outros países cheguem à conclusão que o caminho adotado pelo Brasil – a exigência do diploma – é correto e deve ser seguido.

O jornalismo está cada vez sendo mais criticado precisamente pelo papel importante que tem – e isso, por si só, já denota a necessidade de competências específicas para que o profissional possa corresponder às exigências. E creio que, mais cedo ou mais tarde, muitos países vão acabar seguindo o Brasil nessa exigência.

Mas na Europa, por exemplo, o Processo de Bologna parecer apontar para direção oposta, em termos do ensino universitário...

N. T. – Digamos que há muito pouco consenso sobre isso. Há muitos caminhos propostos e em discussão. O que sei é que há cada vez mais reflexões e um consenso sobre o papel do jornalismo na sociedade com o entendimento de que é cada vez mais difícil exercer a profissão. Mas, ao mesmo tempo, não sei bem se há entendimentos sobre a melhor maneira de se solucionar problemas neste momento. Nos espaços de poder, há, enfim, a todo momento, declarações que apontam para a importância do jornalismo e, ao mesmo tempo, críticas sobre o papel que ele vem cumprindo na sociedade contemporânea. Mas não há ainda consensos sobre a maneira de responder a esses desafios.

O senhor defende a exigência do diploma para o exercício do jornalismo em Portugal?

N. T. – Eu nunca defendi, mas penso que, com o tempo, vai se chegar a essa conclusão. Como disse, gostaria que a própria sociedade chegasse a essa conclusão. Mas há interesses diversos, como os de natureza econômica, que apontam para outras soluções. Para os donos de veículos, certamente, não há interesse na exigência de uma formação específica em jornalismo pois podem encontrar mão-de-obra mais barata que aquela licenciada.

Mas, como tese genérica, o senhor defende a exigência?

N. T. – Eu penso que vamos chegar a essa situação. Vai se exigir cada vez mais do profissional uma qualificação específica. Creio ser inevitável.

***

Livros de Nelson Traquina

Teorias do Jornalismo – por que as notícias são como são, Florianópolis, Editora Insular, 2004

Teorias do Jornalismo – a tribo jornalística: uma comunidade interpretativa transnacional, Florianópolis, Editora Insular, 2005

O Que é Jornalismo?, Lisboa, Quimera, 2002

O Estudo do Jornalismo no Século XX, São Leopoldo (Brasil), Editora Unisinos, 2001

O jornalismo português em análise de casos (em co-autoria com Ana Cabrera, Cristina Ponte e Rogério Santos), 2001

O poder do jornalismo: Análise e Textos do agendamento, Coimbra, Minerva, 2000

Journalism in the Year 2000 (Jornalismo 2000), Traquina, Nelson (Org) (2001) issue of Revista de Comunicação e Linguagens, Nº. 27

Big Show Media: Viagem pelo mundo do audiovisual português (Big Show Media: Voyage Through the Portuguese Audiovisual World). Lisbon: Editorial Notícias, 1997

Jornalismo: Questões, Teorias e ‘Estórias ( Journalism: Questions, Theories and Stories) Editora: Vega, 1993

O Quarto Poder Frustrado: Os Meios de Comunicação Social no Portugal Pós-revolucionário ( The Frustrated Fourth Estate: Portugal’s Post-Revolutionary Mass Media System) Editora Vega, 1988


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